As Ideologias em crise

Ideologias

1. As ideologias em crise

Quando se procura nos livros e na Internet textos a respeito do Capitalismo e do Socialismo o que sempre vemos são dois pontos-de-vista opostos se degladiando eterna e constantemente. Cada um dos lados está sempre mostrando os erros e as falhas do outro sistema e tentando, sobre todo e qualquer argumento mostrar o quanto o seu sistema é melhor que o do outro…

E isto não é uma questão que acontece apenas nos assuntos políticos e econômicos das nossas sociedades, mas também em todos os níveis do conhecimento humano. Como tenho trabalhado constantemente em meu site de saúde e medicina e também em meu consultório, eu resumo esta luta constante na seguinte frase: “Se todo mundo acha que está certo e todo mundo acha que o diferente está errado, quem está certo e quem está errado?”. No fundo, o que os defensores e opositores destas teorias têm em comum é apenas a “certeza de que estão certos”!

Achar que está certo é uma constante em todos os pensamentos humanos pelo fato de que todo mundo usa o próprio conhecimento para analisar e julgar todas as coisas, inclusive a si mesmo. Se eu usar o meu ponto-de-vista, acabarei sempre com o sentimento de que eu estou certo e outro está errado; agora, se eu usar o ponto-de-vista do outro, terei que concordar que o outro está “teoricamente” certo.

A única forma de sair deste impasse é compreender que todo conceito parte de um ponto-de-vista e de que ele é apenas uma parte da realidade complexa!

Uma parábola indiana que explica muito bem isto é a dos 7 cegos “sábios”:

OS CEGOS E O ELEFANTE (História do Folclore Hindu)

 Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos. Como os seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas recorriam à sua ajuda. Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre qual seria o mais sábio. 

Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros: 

– Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí discutindo como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora. No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele.  O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou: 

– Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem; parecem paredes… 

– Que palermice! – disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. – Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra… 

– Ambos se enganam – retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia… 

– Vocês estão totalmente alucinados! – gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. – Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante… 

– Vejam só! – Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! – irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. – Este animal é como uma rocha com uma corda presa no corpo. Posso até pendurar-me nele. 

E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança. Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tacteou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou: 

É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo, e continuam tolos! [1]

Que sublime parábola, milenar, clara e concisa! Todos os homens e mulheres que se debateram ao longo da história mostrando que os outros estavam errados, foram apenas tolos vaidosos, que acreditaram apenas em seus limitados pontos-de-vista!

Eu digo que todos os pontos-de-vista (ou, pelo menos, a maioria) são válidos e verdadeiros, com a única ressalva que o são “relativamente falando”. Se Einstein disse que na Física “tudo é relativo” (em relação ao objeto e ao observador), porque esta relatividade não estaria também presente nas outras áreas do conhecimento humano? Se eu vejo alguma coisa a partir da posição que estou ocupando, vou ver uma parte da realidade desta coisa, mas jamais verei a sua totalidade, a não ser que eu mude a minha posição em relação a ela; e isto significa mudar o meu ponto-de-vista.

Assim, dentro da questão das medicinas, por exemplo, eu acredito que a Alopatia, a Homeopatia, a Ortomolecular, a Ayurvédica, a Chinesa, a Biológica, a Antroposófica, a Xamânica, etc, estão todas certas nos seus pontos-de-vista particulares: bioquímica, energia vital, biomolecular, Doshas, Chi, Espírito, etc. E acredito, também, que nenhuma delas consegue ver e tratar o ser humano como um todo, já que parte de um dos seus princípios de manifestação. As medicinas antigas, por exemplo, foram criadas numa época da humanidade onde as pessoas acordavam com a luz do Sol, trabalhavam pesado o dia todo e se alimentavam de ar, água e alimentos completamente puros; hoje a realidade é que as pessoas vivem estressadas, sedentárias, comendo errado e vivendo num mundo completamente contaminado com quase 100.000 substâncias químicas sintéticas!

Em minha prática clínica priorizo a eficiência da técnica e não a sua teoria, dizendo que “se meu paciente é prego, eu uso martelo e se for parafuso, uso chave-de-fenda”. Sendo assim, as medicinas passam a ser instrumentos e ferramentas terapêuticas, com usos, indicações, eficiências e limitações específicas de cada caso, mas vou deixar este tema para o meu sitehttp://www.drpaulomaciel.com.br/, em vez deste blog.

Voltando à Economia e Política, a questão ideológica se mostra da mesma forma: a polarização da verdade, com a defesa de um único ponto-de-vista e o ataque permanente ao outro viés da questão! Entretanto, uma luz surge no final do túnel: aquela polarização brutal que ocorria durante a Guerra Fria entre o Capitalismo americano e o Socialismo soviético vem se diluindo e se confundindo em direção a um centro mais flexível e liberal.

A Guerra Fria compreendeu o período entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991), criando um conflito de ordem política, militar, tecnológica, econômica, social e principalmente ideológica entre as duas ações e suas zonas de influência. Os EUA defendiam a economia capitalista, argumentando ser ela a representação da democracia e da liberdade. Em contrapartida a URSS enfatizava o socialismo como resposta ao domínio burguês e solução dos problemas sociais. Sob a influência das duas doutrinas, o mundo foi dividido em dois blocos liderados cada um por uma das superpotências: a Europa Ocidental e a América Central e do Sul sob influência cultural, ideológica e econômica estado-unidense, e a maior parte do Leste Asiático, Ásia central e Leste europeu, sob influência soviética.[2]

Assim, o mundo dividido sob a influência das duas maiores potências econômicas e militares da época, estava também polarizado em duas ideologias opostas: o Capitalismo e o Socialismo, o que quase levou a humanidade à Terceira Guerra Mundial, que seria atômica e devastadora. Albert Einstein chegou a dizer: “Não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas poderei vos dizer como será a Quarta: com paus e pedras”. Esta eminência da Hecatombe Nuclear e o medo da devastação humana e terrestre geraram um movimento mundial chamado “Movimento Hippie”, que pregava “Faça Amor, não faça Guerra”. Nos anos 60, muitos jovens passaram a contestar a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais e o poder militar e econômico. Esses movimentos de contestação iniciaram-se nos EUA, impulsionados por músicos e artistas em geral. Os hippies defendiam o amor livre e a não-violência e o lema “Paz e Amor” sintetizava bem a postura política dos hippies, que constituíram um movimento por direitos civis, igualdade e anti-militarismo nos moldes da luta de Gandhi e Martin Luther King, mantendo uma postura mais anárquica do que anarquista propriamente, neste sentido. [3]

O movimento hippie insurgiu-se contra a manutenção da “tradição” que estava levando a humanidade à auto-destruição e com esta ideologia anárquica implantou um movimento de liberdade que nos trouxe à realidade atual: A liberdade sexual, a não-discriminação das minorias, o ambientalismo, o direito à expressão individual e o misticismo atual. E no contexto deste tema, lembramos o imortal Raul Seixas cantando: “Não tem certo nem errado, todo mundo tem razão; e que o ponto de vista, é que é o ponto da questão” [4].

Com a extinção da União Soviética em 1991 e a queda do Muro de Berlin em 9 de Novembro de 1989, a Guerra Fria se esfria e surge um movimento de centralização política no Europa, que estava exatamente no meio geográfico e político desta questão: atualmente só 5 dos 27 governos da União Européia têm um líder progressista (centro-esquerda): Espanha, Grécia, Eslovênia, Chipre e Áustria (neste caso, em coalizão com os democratas cristãos).

Os partidos social-democratas europeus estão desgastados e os conservadores estão sendo considerados administradores mais confiáveis. A crise desgasta as formações clássicas dos partidarismos e os países caminham para um posição de cento moderado. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos acredita que os partidos de centro-esquerda estão sendo derrotados pelas urnas na Europa porque não conseguem se diferenciar da direita.

Boaventura diz também que “as políticas liberais foram fielmente postas em prática e com grande zelo pelos próprios partidos de centro-esquerda a partir do momento em que a chamada Terceira Via passou a dominar a social-democracia europeia. Teorizada nos anos 1990 por Anthony Giddens, seguida inicialmente pelo Partido Trabalhista inglês e depois pelos restantes partidos socialistas europeus, a Terceira Via abriu o caminho para a prioridade da estabilidade dos mercados sobre a estabilidade das expectativas dos cidadãos. Com isso, a centro-esquerda passou a ter muitas dificuldades em distinguir-se da direita. [5] 

Não vou entrar neste momento em detalhes técnicos e exaustivos dos conflitos ideológicos, que já possuem décadas de debates acirrados, mas vou fazer uma digressão popular: “Em time que está ganhando, não se mexe”, diz o ditado. E é o que tem acontecido ao redor de todo o planeta: com a queda da União Soviética, pareceu ao mundo que o Capitalismo havia vencido e se mostrado superior ao Socialismo e isto fez a balança pender para o lado americano. E como todo mundo quer “levar vantagem em tudo”, as ideologias se adaptaram, na prática, ao movimento Neo-Liberal proposto pelos americanos.

Luiz Carlos Bresser-Pereira expressa muito bem este tema aqui:

“A esquerda não se distingue da direita em termos de liberdade ou de promoção do bem-estar através do desenvolvimento econômico. Ainda que a liberdade política tenha sido originalmente uma conquista da burguesia que usou para isso a ideologia do liberalismo, a democracia foi, antes do que qualquer outra coisa, uma conquista dos pobres e das classes médias, que durante o século dezenove lutaram duramente com os liberais para obterem o sufrágio universal. Por outro lado, embora uma parte da esquerda – a utópica – desdenhe o desenvolvimento econômico que considera assegurado pelo capitalismo, quando partidos ou coalizões de esquerda chegaram ao poder na Europa revelaram-se tão interessados e capazes de promover o desenvolvimento econômico quanto partidos e coalizões de direita. Já em relação à ordem, à justiça e à proteção do ambiente as diferenças são claras. São tão claras que possibilitam a seguinte definição de esquerda e direita. A direita é o conjunto de forças políticas que, em um país capitalista e democrático, luta principalmente por assegurar a ordem, dando prioridade a esse objetivo, enquanto a esquerda reúne aqueles que estão dispostos, até um certo ponto, a arriscar a ordem em nome da justiça – ou em nome da justiça e da proteção ambiental, que só na segunda metade do século vinte assumiu o estatuto de objetivo político fundamental das sociedades modernas [6].”

Uma outra idéia que parece que quase ninguém está mais atacando é o conceito da Democracia: o regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos (povo), direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos. Além do fato de uma democracia poder existir num sistema presidencialista ou parlamentarista, republicano ou monárquico, ela tem outros aspectos bastante saudáveis: 1. O poder e a responsabilidade cívica são exercidos por todos os cidadãos, diretamente ou através dos seus representantes livremente eleitos. 2. A Democracia protege a liberdade humana, respeitando a vontade da maioria e protegendo os direitos fundamentais dos indivíduos e das minorias. 3. O exercício da democracia protege os países de governos centrais muito poderosos e fazem a descentralização do governo a nível regional e local, além de entender que uma das suas principais funções é proteger os direitos humanos fundamentais como a liberdade de expressão e de religião, o direito à proteção legal igual e a oportunidade de organizar e participar plenamente na vida política, econômica e cultural da sociedade.

Uma iniciativa fantástica que prioriza o conceito da Democracia Direta e está garantida pela nossa Constituição é o Projeto Voto Livre:https://www.votolivre.org/, onde cada cidade pode criar e propor as suas próprias leis, a partir de abaixo-assinados com uma percentagem representativa da sua população:

Constituição Federal Brasileira:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I – plebiscito; II – referendo; III – iniciativa popular.

Art. 29. O Município reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos membros da Câmara Municipal, que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição, na Constituição do respectivo Estado e os seguintes preceitos… XIII – iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do Município, da cidade ou de bairros, através de manifestação de, pelo menos, cinco por cento do eleitorado.

Art. 61. A iniciativa das leis complementares e ordinárias cabe a qualquer membro ou Comissão da Câmara dos Deputados, do Senado Federal ou do Congresso Nacional, ao Presidente da República, ao Supremo Tribunal Federal, aos Tribunais Superiores, ao Procurador-Geral da República e aos cidadãos, na forma e nos casos previstos nesta Constituição.

§ 2º – A iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles.

Lei Orgânica do Município de Curitiba:

Art. 7º – Todo Poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente.

Parágrafo Único – A soberania popular será exercida: I – Indiretamente, pelo Prefeito e pelos Vereadores eleitos para a Câmara Municipal, por sufrágio universal e pelo voto direto e secreto. II – Diretamente, nos termos da lei, em especial, mediante: a)iniciativa popular; b)referendo; c)plebiscito.

Art. 55 – A iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do Município, da cidade ou de bairros poderá ser exercida por cinco por cento, pelo menos, do eleitorado. Em Curitiba isto representa cerca de 65 mil assinaturas.

Parabéns, Marcos Juliano Ofenbock, pela idéia e realização deste ideal! Espero que outras cidades do Brasil sigam este exemplo e depois ele se espalhe pelo mundo, configurando uma Democracia verdadeiramente regida pelo povo e não pelos seus representantes, que são justamente aqueles que estão diariamente nas manchetes horrorizando as pessoas com seus escândalos de corrupção, formação de quadrilhas, falsidade ideológica, etc., etc., etc.

Fontes:

[1] Filmes da parábola no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=PTa_weeOPP4 e http://www.youtube.com/watch?v=fpCyDKUStj4&feature=related.

[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Fria

[3]  http://pt.wikipedia.org/wiki/Hippie

[4] Que Luz é Essa? Raul Seixas

[5] http://zelmar.blogspot.com/2011/06/para-sociologo-centro-esquerda-perde-em.html

[6] Bresser-Pereira (1996, 2000).

2 Comentários (+add yours?)

  1. Antonio
    jun 30, 2014 @ 00:07:19

    é possível recortar alguns paragrafos do teu blog para réplicas em redes sociais?

    Responder

    • drpaulomaciel
      jul 06, 2014 @ 14:27:18

      Claro que sim, Antonio! A intenção é espalhar consciência para este mundão afora… Por isso, sempre que possível, poste o link junto, ok? Abraços, meu amigo!

      Responder

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