O Sociopata-alfa!

psicopatas

O sociopata-alfa

A revista Superinteressante publicou pelo menos 3 artigos sobre o tema. Um deles, de 2006, escrito por Leandro Narloch e intitulado “Seu amigo psicopata”, tinha como subtítulo: “Cinco milhões de brasileiros são incapazes de sentir emoções. Eles podem até matar sem culpa e estão incógnitos ao seu lado”:

Então [a mãe] descobriu que o filho sofre da mesma doença de alguns assassinos em série e também de certos políticos, líderes religiosos e executivos. “Apenas confirmei o que já sabia sobre ele”, diz Norma. “Dói saber que meu filho é um psicopata, mas pelo menos agora eu entendo que problema ele tem.”

Guilherme não é um assassino como o Maníaco do Parque ou o Chico Picadinho. Mas todos eles sofrem do mesmo problema: uma total ausência de compaixão, nenhuma culpa pelo que fazem ou medo de serem pegos, além de inteligência acima da média e habilidade para manipular quem está em volta. A gente costuma chamar pessoas assim de monstros, gênios malignos ou coisa que o valha. Mas para a Organização Mundial da Saúde (OMS), eles têm uma doença, ou melhor, deficiência. O nome mais conhecido é psicopatia, mas também se usam os termos sociopatia e transtorno de personalidade antissocial.

Com um nome ou outro, não se trata de raridade. Entre os psiquiatras, há consenso quanto a estimativas surpreendentes sobre a psicopatia. “De 1% a 3% da população tem esse transtorno. Entre os presos, esse índice chega a 20%”, afirma a psiquiatra forense Hilda Morana, do Instituto de Medicina Social e de Criminologia do Estado de São Paulo (Imesc). Isso significa que uma pessoa em cada 30 poderia ser diagnosticada como psicopata. E que haveria até 5 milhões de pessoas assim só no Brasil. Dessas, poucas seriam violentas. A maioria não comete crimes, mas deixa as pessoas com quem convivem desapontadas. “Eles andam pela sociedade como predadores sociais, rachando famílias, se aproveitando de pessoas vulneráveis e deixando carteiras vazias por onde passam”, disse à SUPER o psicólogo canadense Robert Hare, professor da Universidade da Colúmbia Britânica e um dos maiores especialistas no assunto.

Os psicopatas que não são assassinos estão em escritórios por aí, muitas vezes ganhando uma promoção atrás da outra enquanto puxam o tapete de colegas. Também dá para encontrá-los de baciada entre políticos que desviam dinheiro de merenda para suas contas bancárias, entre médicos que deixam pacientes morrer por descaso, entre “amigos” que pegam dinheiro emprestado e nunca devolvem… Lendo esta reportagem, não se surpreenda se você achar que conhece algum. Certamente você já conheceu.” 1

Atributo número 1 dos psicopatas: a mentira:

Todo mundo mente, mas psicopatas fazem isso o tempo todo, com todo mundo. Inclusive com eles mesmos. São capazes de dizer “já saltei de paraquedas” e, logo depois, “nunca andei de avião”, sem achar que existe uma grande contradição aí. Espertos, não se contentam só em dizer que são neurocirurgiões, por exemplo, sem nunca ter completado o colegial: usam e abusam de termos técnicos das profissões que fingem ter. Se o sujeito finge ser advogado, manda ver nos “data venias” da vida. Se diz que estudou filosofia, vai encher o vocabulário de expressões tipo “dialética kantiana” sem fazer ideia do que isso significa. Sim, eles são profissionais da lorota.

Também é um atributo-chave da mente de um psicopata: cabeça fresca. Nada deixa esses indivíduos com peso na consciência. Fazer coisas erradas, todo mundo faz. Mas o que diferencia o psicopata do “todo mundo” é que um erro não vai fazer com que ele sofra. Sempre vai ter uma desculpa: “Um cara que matou 41 garotos no Maranhão, Francisco das Chagas, disse que as vítimas queriam morrer”, conta Antônio Serafim.

Justamente por achar que não fazem nada de errado, eles repetem seus erros. “Psicopatas reincidem 3 vezes mais que criminosos comuns”, afirma Hilda Morana, que traduziu e adaptou a escala Hare para o Brasil. “Tem mais: eles acham que são imunes a punições.” E isso vale em qualquer situação. “Pessoas comuns mudam de estratégia quando não obtêm recompensa”, afirma o neurocientista James Blair, autor do livro The Psychopath – Emotion and the Brain (“O Psicopata – Emoção e o Cérebro”, sem edição brasileira). “Mas crianças e adultos com tendências psicopáticas continuam a ação mesmo sendo repetidamente punidos com a perda de pontos.”

Psicopatas não aprendem com punições. Não adianta dar palmadas neles.

Além disso, psicopata que se preze se orgulha de suas mancadas. “Esse sujeito pode ser o marido que trai a mulher e se gaba para os amigos. Ou coisa pior.” … O próprio psiquiatra Antônio Serafim está acostumado com relatos grandiosos de carnificinas: “Quando você pergunta sobre a destreza com que cometeram os crimes, eles contam detalhes dos assassinatos, cheios de orgulho.” 1

Para entendermos como funciona o cérebro de um psicopata, Eis mais um traço psicopático: Eles tratam as pessoas como coisas”, afirma o psiquiatra Sérgio Paulo Rigonatti, do Instituto de Psiquiatria do HC. Isso acontece porque eles simplesmente não assimilam emoções. 1

Para entender isso melhor, vamos dar um passeio pelo inferno:

“Corpos decapitados, crianças esquálidas com moscas nos olhos, torturas com eletrochoque, gemidos desesperados. Só de imaginar cenas assim, a reação de pessoas comuns é ter alterações fisiológicas como acelerar as batidas do coração, intensificar a atividade cerebral e enrijecer os músculos. Em 2001, o psiquiatra Antônio Serafim colocou presos de São Paulo para assistir a cenas assim. Cada um ouvia, por um fone, sons desagradáveis, como gritos de desespero. “Os criminosos comuns tiveram reações físicas de medo”, diz ele. “Já os identificados como psicopatas não apresentaram sequer variação de batimento cardíaco.”

Mais: uma série de estudos do Instituto de Neurociência Cognitiva, nos EUA, mostrou que psicopatas têm dificuldade em nomear expressões de tristeza, medo e reprovação em imagens de rostos humanos. “Outros 3 estudos ligaram psicopatia com a falta de nojo e problemas em reconhecer qualquer tipo de emoção na voz das pessoas”, afirma Blair.

É simples: assim como daltônicos não conseguem ver cores, psicopatas são incapazes de enxergar emoções. Não as enxergam nem as sentem, pelo menos não do mesmo jeito que os outros fazem. Em vez disso, eles só teriam o que os psiquiatras chamam de proto-emoções – sensações de prazer, euforia e dor menos intensas que o normal. “Isso impede os psicopatas de se colocar no lugar dos outros”, diz Hilda Morana.

Um dos pacientes entrevistados por Hare confirma: “Quando assaltei um banco, notei que uma caixa começou a tremer e a outra vomitou em cima do dinheiro, mas não consigo entender por quê”, disse. “Na verdade, não entendo o que as pessoas querem dizer com a palavra ‘medo’”.

No livro No Ventre da Besta – Cartas da Prisão, o escritor americano Jack Abbott descreve com honestidade o que acontece na sua cabeça de psicopata: “Existem emoções que eu só conheço de nome. Posso imaginar que as tenho, mas na verdade nunca as senti”.

É como se eles entendessem a letra de uma canção, mas não a música. Esse jeito asséptico de ver o mundo faz com que um psicopata consiga mentir sem ficar nervoso, sacanear os outros sem sentir culpa e, em casos extremos, retalhar um corpo com o mesmo sangue-frio de quem separa as asinhas do peito de um frango assado.1

Para ilustrar melhor como funciona um sociopata nas empresas, a revista Superinteressante publicou o artigo “Psicopatas no trabalho”, por Maurício Horta:

“Até 3,9% dos executivos de empresas podem ser psicopatas, segundo uma pesquisa feita em companhias americanas. Uma taxa de psicopatia 4 vezes maior do que na população em geral. Eles não matam os colegas, mas usam o cargo para barbarizar. Cancelam férias dos subordinados, obrigam todo mundo a trabalhar de madrugada, assediam a secretária, demitem sem dó nem piedade. Isso quando não cometem crimes de verdade. Um terço das companhias sofre fraudes significativas a cada ano, de acordo com uma pesquisa de 2009 realizada pela consultoria PriceWaterhouseCoopers, que analisou 3.037 companhias em 54 países. Por causa dessas mutretas, cada uma perde, em média, US$ 1,2 milhão por ano. Muitos desses golpes podem ser obra de psicopatas corporativos. 

“Eles são capazes de apunhalar empregados e clientes pelas costas, contar mentiras premeditadas, arruinar colegas poderosos, fraudar a contabilidade e eliminar provas para conseguir o que querem”, diz Martha Stout, psiquiatra da Escola Médica de Harvard por 25 anos e autora do livro Meu Vizinho É um Psicopata. E fazem isso na cara dura, como se não estivessem nem aí para o sofrimento alheio. É que, na verdade, eles não estão ligando nem um pouco mesmo.

Como os colegas mais violentos, os psicopatas de colarinho branco não pensam no bem-estar dos outros, nem sentem culpa quando pisam na bola. Por isso passam por cima de regras, estejam elas formalizadas em leis ou somente estabelecidas pela ética e pelo senso comum. Acontece que o cérebro deles é diferente de um cérebro normal. No caso do psicopata, a atividade é maior nas áreas ligadas à razão do que nas ligadas à emoção, o que o faz manter-se impassível diante de tragédias – seja um gatinho em apuros, seja uma chacina em um orfanato. (veja mais no quadro da página 53). Como não consegue se colocar no lugar dos outros, o psicopata usa e abusa dos amigos – puxa o tapete dos colegas sem se preocupar com código de conduta corporativo ou consequência na vida alheia.” 2

E mais:

Psicopatas podem não ter emoções, mas conseguem analisar muito bem como e por que as outras pessoas se emocionam. São estudiosos da natureza humana, prontos a usar o que aprenderam para o próprio interesse. Descobrem os hábitos e gostos dos colegas, se aproximam, criam um vínculo aparente. Assim conseguem convencer a colega de coração mole a fazer o trabalho por eles no fim de semana. Ou extrair informações sigilosas da secretária do presidente. Ou botar a culpa nos outros pelos problemas que aparecem. Aquela concorrente obstinada e perfeccionista conseguiu se promover trabalhando até as madrugadas? Ela não ia gostar de ouvir que é uma folgada e só conseguiu aumento se engraçando com o chefe. Bingo: basta espalhar essa história por aí para atingi-la. Desequilibrada pelo fuxico, ela poderia se tornar em breve um obstáculo a menos. 

Atitudes assim passam despercebidas em empresas que estimulam a competição entre os funcionários. Se a companhia está obcecada pelos resultados que cada empregado gera, é possível que não preste tanta atenção ao cumprimento da ética no ambiente de trabalho. Movida a competitividade, a empresa americana de energia Enron foi do estrelato ao fundo do poço por causa de fraudes cometidas por executivos do mais alto escalão. A empresa começou o ano de 2001 como uma gigante, com faturamento de US$ 100,8 bilhões. Seus empregados sabiam que precisavam trabalhar como loucos. Todo semestre, um ranking interno nomeava os 5% melhores funcionários. Em seguida vinham os 30% excelentes, os 30% fortes, os 20% satisfatórios e, por último, os 15% que “precisavam melhorar”. Se não melhorassem até a próxima avaliação, eram mandados para o olho da rua. E quem avaliava as pessoas? Os próprios colegas. O sistema parecia impulsionar a produtividade. Até que descobriram que a competição impulsionava mesmo eram falcatruas para garantir uma boa posição interna. No fim de 2001, fraudes que somavam US$ 13 bilhões engoliram a empresa. A Enron faliu. “Algumas compa­nhias competitivas contratam pessoas tão agressivas e ambiciosas que acabam deixando para trás questões importantes do mundo da moral”, afirma Roberto Heloani, psicólogo social e professor de gestão da FGV de São Paulo e da Unicamp. 2

E agora, a questão mais grave nas empresas, o “Mal de chefe”:

“Psicopatas podem estar em qualquer nível hierárquico, desde que o cargo lhes traga algum benefício.” Mas é mais provável que eles estejam no topo. Em 2010, 203 executivos de 7 companhias americanas foram avaliados pelo psicólogo Paul Babiak. O resultado revelou aquela estatística que você viu no começo da reportagem – 3,9% dos entrevistados tinham pontuação suficiente nos testes de Babiak para ser diagnosticados como psicopatas. Onde estavam os casos mais graves? No alto escalão: 2 vice-presidentes e 2 diretores. 

Por quê? É mais fácil enrolar em cargos de liderança. Um gestor precisa saber liderar a equipe, motivar os funcionários, relacionar-se com fornecedores e parceiros. Já um técnico precisa entender do negócio da empresa – negociar preços, saber como anda o mercado, apresentar as melhores estratégias ao chefe. No estudo de Babiak, ficou claro que os psicopatas não querem saber de trabalhar. A pesquisa usou dois grupos de habilidades para avaliar os executivos: um ligado ao plano das ideias (comunicação, criatividade e pensamento estratégico) e outro relacionado a produtividade (gerenciamento, liderança, desempenho e trabalho em grupo). Quão mais alto o grau de psicopatia de um executivo, pior foi a nota dele no grupo de produtividade.” 2

Finalmente, um texto relacionado com minha teoria, no subtítulo “Cobras de terno”:

“Mesmo quem defende uma origem 100% genética para a psicopatia não descarta a importância do ambiente.” A criação, nessa história, seria fundamental para determinar que tipo de psicopata um camarada com tendência vai ser.

“Fatores sociais e práticas familiares influenciam no modo como o problema será expresso no comportamento”, afirma Rigonatti. Por exemplo: psicopatas que cresceram sofrendo ou presenciando agressões teriam uma chance bem maior de usar sua “habilidade” psicopática para matar pessoas.

Um bom exemplo desse tipo é o americano Charles Manson. Filho de uma prostituta alcoólatra e dono de uma mente pra lá de sociopata, transformou um punhado de hippies da Califórnia em um grupo paramilitar fanático nos anos 70. Manson foi responsável pela carnificina na casa do cineasta Roman Polanski. Entre os 5 mortos, estava a atriz Sharon Tate, mulher do diretor e grávida de 8 meses. Detalhe: ele nem sequer participou da ação. Só usou sua capacidade de liderança para convencer um punhado de seguidores a realizar o massacre.

Já os que vêm de famílias equilibradas e viveram uma infância sem grandes dramas teriam uma probabilidade maior de se transformar naqueles que mentem, trapaceiam, roubam, mas não matam. Mais de 70% dos psicopatas diagnosticados são desse grupo, mas não há motivo para alívio. Psicopatas infiltrados na política, em igrejas ou em grandes empresas podem fazer estragos ainda piores.

Exemplos não faltam. O político absurdamente corrupto que é adorado por eleitores, cativa jornalistas durante entrevistas, não entra em contradição nem parece sentir culpa por ter recheado suas contas bancárias com dinheiro público é um. O líder religioso que enriquece à custa de doações dos fiéis é outro. E por aí vai.

“Eles costumam se dar bem em ambientes pouco estruturados e com pessoas vulneráveis. Agem como cartomantes, pais de santo, líderes messiânicos”, afirma Oliveira-Souza.” 2

Um tema que foge ao escopo desta teoria, mas que é interessante para quem quiser analisar a psicopatia em crianças está no artigo “Pequenos Psicopatas – Conheça a história de crianças que já nascem más” da revista Superinteressante edição 304, de maio de 2012.3

Outro artigo sobre a psicopatia em crianças pode ser encontrado no artigo “Anjos malvados” por Mariana Sgarioni de julho de 2009 também da revista Superinteressante”. 4

O site “Psicopata” traz uma entrevista muito esclarecedora com o psicólogo Leonardo Araujo:

Psicopata: mente cruel em rosto agradável

“Charmosos e simpáticos; mentirosos e manipuladores. Os psicopatas não se importam de passar por cima de tudo e de todos para alcançar seus objetivos. Egocêntricos e narcisistas, eles não sentem remorso, muito menos culpa. Se algo ou alguém ameaça seus planos, tornam-se agressivos. São mestres em inverter o jogo, colocando-se no papel de vítimas. E estão sempre conscientes de todos os seus atos, pois, diferentemente do que ocorre em outras doenças mentais, os psicopatas não entram em delírio.

A psicopatia atinge cerca de 4% da população (3% de homens e 1% de mulheres), segundo a classificação americana de transtornos mentais. Sendo assim, um em cada 25 brasileiros enquadra-se nesse perfil. Mas isso não significa, é claro, que todos são assassinos em potencial.

Estudos coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que, de fato, é comum que os psicopatas recorram à violência física e sexual. No entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta. Alguns pesquisadores acreditam até que muitos sejam bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na política, nos negócios ou nas artes.

O psicólogo Leonardo Fd Araujo, especialista em psicologia clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná, concedeu entrevista ao Comunicação On-line e fala mais sobre a psicopatia e os psicopatas.

Comunicação On-line: O que caracteriza a psicopatia?

Araújo: O egocentrismo, a ausência de culpa e remorso, o excesso de razão e inexistência de emoção são as principais características. Os psicopatas fingem e mentem muito bem, e forjam o afeto. Além disso, há os prejuízos sociais causados por esse tipo de transtorno mental, tais como agressões, estupros e assassinatos. É preciso ressaltar que o psicopata sente prazer em cometer o mal, em conseguir concretizar o que ele almeja. O falsário sente um extremo prazer ao conseguir enganar alguém, assim como o estuprador sente o mesmo ao cometer um estupro. Quando o mal está feito, ele não se culpa e ainda procura cometer outros crimes contra outras vítimas.

Comunicação On-line: O psicopata é pintado geralmente como um assassino. Mas esse é o único perfil de um psicopata?

Araujo: O psicopata apresenta vários perfis. A grosso modo, existe o psicopata leve, moderado e grave. O psicopata leve é o conhecido “171”, aplica pequenos golpes e engana pessoas de bem. O moderado já se envolve de maneira mais contundente com as vítimas dos golpes, que quase sempre envolvem muitas pessoas e grandes somas em dinheiro. Já o psicopata grave, esse sim é o mais conhecido pelo público leigo. É o indivíduo que comete assassinatos a sangue frio, sejam em série ou não. Nos noticiários, infelizmente, volta e meia aparecem casos de assassinos e estupradores seriais, muitas vezes crimes com requintes de crueldade. O que os diferencia é a forma de agir. Uns sentem prazer no estupro, em torturar, outros em torturar e matar.

Comunicação On-line: O que pode levar um indivíduo a cometer atitudes de psicopatas?

Araujo: A psicopatia tem causa multifatorial. Há estudos que demonstram que psicopatas que tiveram uma infância repleta de violência e com uma família desestruturada, podem chegar a cometer crimes graves contra a vida. Ou seja, podem se tornar verdadeiros predadores sociais, causando sérios prejuízos à sociedade. Há também fatores genéticos, fatores próprios de cada indivíduo e fatores de ordem social que quando somados, podem levar à psicopatia.

Comunicação On-line: Existe uma maneira de perceber que uma pessoa é um psicopata?

Araujo: Isso é bem complicado. É sempre bom desconfiar de pessoas que se apresentam de forma sedutora, com ideias mirabolantes, sempre muito agradáveis. A mídia já retratou diversos casos de impostores. Eles se aproveitam de mulheres quase sempre muito bem colocadas profissionalmente, prometem mundos e fundos, enfim, ganham a confiança da vítima. Quando menos se espera, o impostor pede um dinheiro para completar a compra de um imóvel ou de um carro, e promete pagar assim que possível, ou assim que fechar outro negócio. A partir daí, já é tarde para reagir. Geralmente esses impostores somem no dia seguinte sem deixar nenhum vestígio. Coisa parecida acontece nos casos de estupradores e assassinos seriais. O psicopata vem com uma conversa agradável, dizendo que a moça é muito bonita, que quer tirar umas fotos dela para a agência de modelos. Pronto, a armadilha foi colocada, dificilmente a vítima terá escapatória. Esse tipo de abordagem foi usada, por exemplo, pelo Maníaco do Parque em São Paulo.

Comunicação On-line: Uma pessoa que possui um perfil de psicopata nasce com essas características, ou pode adquiri-las?

Araujo: O psicopata já o é desde o nascimento. Mais cedo ou mais tarde, o transtorno pode ser deflagrado, em maior ou menor grau. Estudos demonstram que filhos de psicopatas têm cinco vezes mais chances de desenvolver o mesmo transtorno. Sabemos que todo transtorno mental tem causas biológicas, psíquicas e sociais. Uma criança filha de psicopata, que sofreu abuso e violência, tem ainda mais chances de desenvolver o transtorno. Um jovem pode desde cedo começar a demonstrar os primeiros sinais de que há algo errado. Por volta dos 15 anos pode apresentar os primeiros sinais de transtorno de conduta e se não tratado, pode evoluir para a psicopatia.

Comunicação On-line: Como é o relacionamento social do psicopata? Ele consegue ter uma vida social, com amigos, trabalho e estrutura como outra pessoa qualquer?

Araujo: O relacionamento social de um psicopata é movido por interesses. O problema é que na maioria das vezes é uma via de mão única: as vantagens são almejadas apenas para benefício próprio. Nem que para isso seja necessário passar por cima de quem estiver em seu caminho, causando sérios problemas para quem o cerca. É importante ressaltar que os prejuízos monetários, morais, físicos e psíquicos que as vítimas do psicopata sofrem são incalculáveis. No trabalho, o processo é o mesmo. A vida laboral do psicopata é repleta de desmandos, crises com superiores e intrigas. Para os que convivem com um psicopata, principalmente familiares, a relação é sempre difícil e conturbada. Os familiares percebem que algo está errado, mas para o psicopata está tudo na mais perfeita ordem.

Comunicação On-line: Aos olhos da maioria da população, as atitudes dessas pessoas são reprováveis. O psicopata tem consciência de que aquilo que ele faz é errado?

Araujo: Esse é um ponto importante. O psicopata sabe exatamente o que faz inclusive que tais atos são ilegais ou imorais. Ele tem ciência de que pode ser pego pela polícia e levado à justiça. Sendo assim, o psicopata calcula meticulosamente os seus passos. Um estelionatário ardiloso, por exemplo, planeja cada passo, cada detalhe para que seu plano tenha êxito e para que nada seja descoberto antes do tempo. Tudo o que o psicopata faz é normal e natural, para ele mesmo, é claro. Por não sofrer de remorso ou culpa, comete os piores crimes e atrocidades sem pestanejar.

Comunicação On-line: Assim como outros distúrbios da mente, a psicopatia tem algum tratamento?

Araujo: Para praticamente todos os casos, o tratamento tem pouco ou nenhum efeito. É preciso entender que a maneira de ser do psicopata é algo ruim para nós, mas para eles é algo perfeitamente normal e aceitável. Ainda não soube de nenhum caso de um psicopata estelionatário que passe por uma crise existencial e procure um tratamento. No psicopata grave então, nem se fala. As tentativas de intervenção, para estes casos graves, se dão no meio carcerário. Infelizmente, tais intervenções, são complicadas e conturbadas. Adoraria dizer o contrario, mas ainda não há cura para a psicopatia, e o tratamento se dá visando a redução de danos. Ou seja, é uma tentativa de tratamento que tem como objetivo diminuir os efeitos e os prejuízos sociais causados pelo psicopata.5

Vamos, agora, finalizar este estudo com um tema assaz espinhoso e perigoso: o Sociopata-alfa!

Primeiramente estudamos e procuramos compreender a existência e a natureza dos “machos-alfa” entre os animais e depois evoluímos para o conceito das psicopatias e sociopatias. Como vimos anteriormente, já existem muitos estudos a respeito dos sociopatas e psicopatas assassinos, de crianças psicopatas e de profissionais psicopatas. Mas existe muito pouco ou quase nenhum estudo e análise do psicopata que está agindo nos grandes cargos de poder do mundo: políticos e religiosos.

Para termos uma ideia da escassez do tema sociopatia x poder, procuramos referências em 3 livros publicados em nosso país e eis o que encontramos:

No livro “Homens maus fazem o que os homens bons sonham”, de Robert Simon, o autor descreve extensamente e detalhadamente histórias de serial killers famosos como Dennis Rader, Alexandr Pichuskin, John Wayne Gracy, Theodore Robert Bundy e Jeffrey Dahmer. Além disso ele escreve sobre assassinos, estupradores, perseguidores, assediadores, agressores, traidores e lideres messiânicos psicopatas, mas não faz nenhuma menção específica sobre políticos psicopatas! Em um único parágrafo, ele cita algumas questões políticas históricas:

“Infelizmente, a história da humanidade está repleta de atrocidades típicas do “verdadeiro mal”, as guerras, os assassinatos em massa e os genocídios. Estima-se que Hitler e os nazistas tenham exterminado até 10 milhões de pessoas, e que Joseph Stalin e seus asseclas tenham deportado e assassinado 20 milhões de concidadãos. Além disso, no século XX, assistimos ao genocídio de armênios por turcos, estimado em 1 milhão de pessoas, e à matança de 2 milhões de cambojanos pelo Khmer Vermelho. Em 1994, mais de 500 mil pessoas foram massacradas no genocídio de Ruanda. Enquanto este livro é impresso, centenas de milhares de pessoas são mortas em Darfur.” 6

Já o livro “Trabalhando com monstros”, de John Clarke 7, que ensina “como identificar psicopatas no seu trabalho e como se proteger deles”, se mantém fiel à sua proposta de descrever os psicopatas corporativos e não faz nenhuma menção aos sociopatas políticos.

Finalmente (e felizmente), o único livro que cita de passagem, mas claramente a ação dos políticos sociopatas é o “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado”, de Ana Beatriz Silva. Vejamos as citações que ela faz ao longo do seu trabalho:

“Este livro discorre sobre pessoas frias, insensíveis, manipuladoras, perversas, transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem consciência e desprovidas de sentimento de compaixão, culpa ou remorso. Esses “predadores sociais” com aparência humana estão por aí, misturados conosco, incógnitos, infiltrados em todos os setores sociais. São homens, mulheres, de qualquer raça, credo ou nível social. Trabalham, estudam, fazem carreiras, se casam, têm filhos, mas definitivamente não são como a maioria das pessoas: aquelas a quem chamaríamos de “pessoas do bem”.

Em casos extremos, os psicopatas matam a sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo e sem arrependimento. Porém, o que a sociedade desconhece é que os psicopatas, em sua grande maioria, não são assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns.

Eles podem arruinar empresas e famílias, provocar intrigas, destruir sonhos, mas não matam. E, exatamente por isso, permanecem por muito tempo ou até uma vida inteira sem serem descobertos ou diagnosticados. Por serem charmosos, eloquentes, “inteligentes”, envolventes e sedutores, não costumam levantar a menor suspeita de quem realmente são. Podemos encontrá-los disfarçados de religiosos, bons políticos, bons amantes, bons amigos. Visam apenas o benefício próprio, almejam o poder e o status, engordam ilicitamente suas contas bancárias, são mentirosos contumazes, parasitas, chefes tiranos, pedófilos, líderes natos da maldade.” 8

“Os psicopatas são indivíduos que podem ser encontrados em qualquer raça, cultura, sociedade, credo, sexualidade, ou nível financeiro. Estão infiltrados em todos os meios sociais e profissionais, camuflados de executivos bem-sucedidos, líderes religiosos, trabalhadores, “pais e mães de família”, políticos etc.” 9

“A mais evidente expressão da psicopatia envolve a flagrante violação criminosa das regras sociais. Sem qualquer surpresa adicional, muitos psicopatas são assassinos violentos e cruéis. No entanto, como já dito, a maioria deles está do lado de fora das grades, utilizando, sem qualquer consciência, habilidades maquia-vélicas contra suas vítimas, que para eles funcionam apenas como troféus de competência e inteligência.

Reafirmo que é comum depararmos com pessoas de boa índole (até mesmo de alto nível intelectual e cultural) que duvidam que os psicopatas possam existir de fato. Para sanar essa dúvida, basta observar a grande quantidade de pessoas mostradas na mídia diariamente: assassinos em série, pais que matam seus filhos, filhos que matam seus pais, estupradores, ladrões, golpistas, estelionatários (os famosos “171”), gangues que ateiam fogo em pessoas, homens que espancam as esposas, criminosos de colarinho branco, executivos tiranos, empresários e políticos corruptos, sequestradores…” 10

“A grande maioria dos psicopatas utiliza suas atividades profissionais para conquistar poder e controle sobre as pessoas. Essas ocupações podem auxiliá-los ainda na camuflagem social daqueles que não levam uma vida francamente marginal (delinquentes mais perigosos). Muitos se camuflam em pessoas responsáveis através de suas profissões. Nesse contexto, podemos encontrar policiais que dirigem redes de prostituição, juízes que cometem os mesmos delitos que os réus – mas no julgamento os condenam com argumentações jurídicas impecáveis, banqueiros que disseminam falsos boatos económicos na economia. Também estão alguns líderes de seitas religiosas, que abusam sexualmente de seus discípulos, ou ainda políticos e homens de Estado que só utilizam o poder em proveito próprio. Estes últimos costumam representar grandes perigos pelo tamanho do poder que podem deter.” 11

No próximo parágrafo, Ana Beatriz Silva descreve mais pormenorizadamente a questão do político sociopata:

“A política propicia o exercício do poder de forma quase ilimitada. Poucos cargos permitem um exercício tão propício para atuação dos psicopatas. A “renda” material que eles podem obter também é praticamente incalculável, quando exercem a profissão de forma ilegal. O próprio salário deles também é muito bom, se comparados aos salários dos executivos das corporações privadas. E o fato de terem um foro privilegiado quase lhes assegura de forma impune o exercício do poder com outros fins que não sejam os de servir aos interesses da nação. Todos esses ingredientes fazem uma pizza gostosa de comer, com possibilidade de indigestão quase nula. No Brasil, esse fenômeno torna-se mais gritante porque a impunidade funciona como uma doença crónica e deriva de um somatório que inclui um sistema policial deficitário, um aparelho judiciário emperrado e um código processual retrógrado.

Esse fato pode ser facilmente verificado pelas inúmeras manchetes que diariamente noticiam os diversos crimes cometidos por maus políticos: lavagem de dinheiro público, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, evasão de divisas, crime de peculato, desvio de recursos de obras públicas, envio ilegal de dinheiro ao exterior, crime contra a administração pública e por aí vai.

A coisa chegou a tal ponto, que a palavra “política” passou a designar precisamente esse jogo amoral no qual a igualdade é sempre ultrapassada por pessoas que, desdenhando das leis, passam a controlá-las em vez de zelar por elas. Ou um ritual os quais os criminosos são acusados, mas quando são importantes, livram-se da pena porque têm comprovadas relações pessoais e partidárias com os donos do poder. Roberto DaMatta. Revista Veja, ed. 2.021, ano 40, artigo: “Sem culpa e sem vergonha”, Ed. Abril, 15/8/2007.

Uma pesquisa realizada pelo Ibope (encomendada pela revista Veja) para saber o que os brasileiros acham de seus parlamentares mostra que, embora a maioria dos entrevistados considere que o Congresso é essencial para a democracia, a imagem que eles passam para a população resume-se nos seguintes adjetivos: “desonestos, insensíveis, mentirosos”. Revista Veja, ed. 1.993, ano 40, Ed. Abril, 31/1/2007. 12

“Outra situação para manter os olhos bem abertos é quanto à bajulação. A maioria de nós gosta de receber elogios. Eles são sempre muito bem-vindos principalmente quando são sinceros. Em contrapartida, a bajulação excessiva, o agradar “afetado” e pouco realista é uma das táticas dos psicopatas para nos cegar, seduzir e encobrir suas verdadeiras intenções: manipulação e controle. Por isso, desconfie dos famosos “puxa-sacos”!

E aqui é importante esclarecer que a regra da bajulação se aplica tanto para os indivíduos quanto para os grupos e nações. Da mesma forma que um indivíduo se empolga com a adulação de um manipulador, uma nação inteira pode se “hipnotizar” por lideranças políticas que se utilizam desses mesmos recursos. A história da humanidade está recheada de estadistas tiranos que, ao engrandecerem seu povo, fazem dele uma “presa coletiva” com um único objetivo: o desejo de poder. A exaltação do patriotismo, por exemplo, muitas vezes vem apenas como uma camuflagem para “legitimar” a necessidade de realização das guerras. Discursos com apelos de que as guerras devem ser travadas para o bem da humanidade ou para a construção de um mundo melhor são extremamente perigosos e suspeitos. Guerras são guerras e todas elas são injustificáveis!” 13

 Parabéns, Ana Beatriz, você foi mais longe que todos os outros especialistas, mesmo entre os internacionais! Teve a coragem de escrever abertamente sobre os políticos sociopatas, embora que brevemente.

Para demonstrar a falta total de interesse científico em rotular alguns políticos como sociopatas, no blog da revista Superinteressante de 2012 foi publicado um infográfico com o título “Quais são as profissões que mais atraem psicopatas?”:

 “Seu chefão pode ser um deles. Já pensou como a presidência de uma empresa dá poder a qualquer pessoa? E é exatamente isso que psicopatas procuram: poder. Mas os presidentes não estão sozinhos nessa. Outras profissões oferecem perigo. Dá uma olhada na lista das profissões preferidas pelos psicopatas, segundo pesquisa do psicólogo Kevin Dutton 14, da Universidade de Oxford:

 1. Presidentes de empresa (CEO: Chief Executive Officer)

2. Advogados

3. Profissional da Mídia (Rádio e TV)

4. Vendedor

5. Cirurgião (médicos e odontológos)

6. Jornalista

7. Policial

8. Clérigos (Pastores e padres)

9. Chefes de cozinha

10. Funcionários públicos

O motivo é um pouco óbvio. Psicopatas são pessoas sem coração, toleram mais estresse, não sentem muita empatia, são frias, egocêntricas, manipuladoras, impulsivas e antissociais. E essas profissões/cargos aí de cima exigem tomadas de decisões frias e objetivas. Aí os psicopatas se dão bem. 15

Um fato interessante é observarmos que dentre as dez profissões onde mais existem psicopatas, quatro estão diretamente relacionadas com a mídia e o marketing: CEOs, profissionais da mídia, vendedores e jornalistas! Este é um assunto que pretendo tratar mais adiante, sobre o consumismo que o mundo entrou nesta onda neo-liberal, comprovadamente dirigida por psicopatas como mostra a lista acima!

Mas porque não aparecem os políticos nesta lista dos dez mais se existem tantos políticos sociopatas? Em primeiro lugar porque a pesquisa de Dutton foi realizada em seu próprio site 16, no qual os visitantes respondiam a um teste chamado Escala Levenson de Psicopatia Auto-Relatada e davam detalhes das suas profissões. Depois de fazer esta pesquisa com mais de 5.500 britânicos, ele elaborou a lista com as profissões que atraem mais e menos psicopatas no Reino Unido. Por meio destes testes que ele descobriu que os CEOs estavam na escala mais alta da classificação, seguidos pelos advogados, profissionais de TV e rádio, vendedores, médicos e jornalistas.

Ao examinar os CEOs, Dutton cita um estudo acadêmico de 2005 que compara gerentes de negócios, pacientes psiquiátricos e criminosos internados em um teste de perfil psicológico. “Vários atributos psicopáticos eram realmente mais comuns em líderes empresariais do que nos chamados criminosos perturbados”, escreve Dutton, listando atributos como charme superficial, egocentrismo, persuasão, falta de empatia, independência, e foco. A principal diferença reside nas características “anti-sociais”, com a agressão física dos criminosos, impulsividade e suas transgressões. 17

E em segundo lugar, porque ainda não existe uma consciência clara da presença dos sociopatas na política. A única citação de Dutton acerca dos políticos psicopatas que encontrei em todas as minhas pesquisas foi esta: “Não é de surpreender que a política atraia um número desproporcional de psicopatas. ”Os políticos devem ser auto-confiantes, sem medos, muito bons em persuasão e manipulação, e serem mentalmente fortes para lidar com as crises”, diz ele”. 18

Em outra parte desta entrevista, Dutton diz: “Bill Clinton, Steve Jobs, Franklin Roosevelt, James Bond, John F. Kennedy, Vladimir Putin, o rei Davi e o apóstolo Paulo – todos esses, Dr. Dutton sugere, sem dúvida marcariam um alto nível de psicopatia em qualquer teste psicológico”. 18

Esta quase inexistência relacional entre sociopatas e políticos justifica o grande desconhecimento humano de uma das grandes raízes do mal em toda a história de nossa humanidade!

Certa vez uma paciente me perguntou por que, “com 10.000 anos de história da humanidade, com centenas de teóricos e com milhares de teorias políticas e religiosas, o mundo nunca deu certo?”. Minha resposta foi a de que “o mundo jamais deu certo porque ele nunca foi governado pelos teóricos ou fundadores das teorias políticas ou religiosas, mas sim pelos sociopatas e psicopatas”. Marx, por exemplo, escreveu sobre suas teorias políticas e econômicas, mas nunca governou nem matou uma pessoa sequer dos milhões que foram assassinados em nome da teoria Marxista! Jesus não governou nem matou ninguém em nome do Cristianismo; mas os seus seguidores (católicos e protestantes) foram responsáveis por milhões de mortes ao longo destes 2.000 anos!

Se olharmos detidamente ao longo de toda a história humana, não encontramos as “lutas de classes” como escreveu Marx em seu Manifesto Comunista, mas encontraremos em todas as épocas e lugares a eterna luta pelo poder! Quando vemos reis, faraós e imperadores matando seus concorrentes; quando vemos países, tribos ou religiões lutando uns contra os outros, o que eles realmente estão almejando? Nada mais nada menos que o PODER!

Pela tipologia de Millon, em qual subtipo se encaixaria o sociopata-alfa (o político)?

Precisamente no subtipo Ambicioso porque ele “persegue avidamente seus engrandecimentos”: o prazer psicopático nos ambiciosos está baseado mais em tomar do que em ter.  Como a fome que os animais experimentam em relação à presa, os Psicopatas Ambiciosos têm um enorme impulso para a rapinagem, e tratam os demais como se fossem peões num tabuleiro de xadrez de poder. Além de terem pouca consideração pelos efeitos de sua conduta, sentindo pouca ou nenhuma culpa pelos efeitos de suas ações, como os demais psicopatas, os ambiciosos nunca chegam a sentir que tem adquirido o bastante para compensar suas privações. Independentemente de suas conquistas, permanecem sempre ciumentos e invejosos, agressivos e ambiciosos, exibindo todas as vezes que podem posses e consumo ostentoso. 19

Isto explica o motivo de alguns políticos passarem a vida toda roubando do povo sem nenhum medo, escrúpulo ou culpa, independente da quantidade que possam ter acumulado. Além disso, estes políticos mentem na “cara dura” e parecem jamais serem afetados pelos escândalos que causam…

Uma vez eu perguntei a uma paciente “como ela estaria se o seu nome estivesse sendo incriminado em todos os jornais, revistas e TVs e se a Interpol, a CIA e a Polícia Federal estivessem querendo prendê-la acusando-a de formação de quadrilha, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas” e ela me disse: “eu estaria morta”! Qualquer pessoa neurótica comum teria adoecido ou até enlouquecido sob tanta pressão; mas os sociopatas continuam roubando, mentindo na maior cara de pau e permanecendo saudáveis e felizes, acenando para as pessoas como se nada tivesse acontecido!

Uma pessoa neurótica comum, se fosse acusada publicamente, imediatamente entregaria o seu cargo e faria de tudo para provar que era inocente. Um sociopata acusaria o sistema de estar contra ele, falaria grosso e diria que era inocente, mas não entregaria o cargo e não faria o mínimo esforço para provar o que estava dizendo. Os sociopatas, quando acusados, normalmente se mostram agressivos, soberbos e seguros; os neuróticos ficam deprimidos, medrosos e doentes.

Um sociopata, na maioria das vezes, consegue até passar por um detector de mentiras sem ser identificado. Por quê? Porque ele não sofre por mentir! Ele não sente culpa e isto faz com os seus sistemas neurológicos (frequência cardíaca, sudorese, respiração, pressão arterial) não sejam afetados pela farsa que está dizendo. Por isso não adianta colocar um sociopata-alfa num detector de mentiras: vai parecer que tudo o que ele está falando é verdade e ele ainda vai rir secretamente da sua cara (o CQC que o diga)!

Vamos então, parafraseando o livro “Trabalhando com monstros”, traçar as características de um Sociopata-alfa: 

  1. Comportamento profissional: Manipulativo; intolerante; antiético; emoções imprevisíveis e superficiais; comportamento parasita; busca de aumento de poder e controle no partido; cria conflitos entre os membros do próprio partido ou dos adversários políticos.
  2. Comportamento interpessoal: Manipulativo; enganador; maldoso; falso; não assume responsabilidade pelas próprias ações; intimidador; charmoso e superficial.
  3. Características emocionais individuais: Insensível; falta de consciência; sentimento de grandiosidade; presunção; egocêntrico; narcisista; emoções superficiais; mentiras patológicas; problemas conjugais; promiscuidade sexual e impulsividade. 20

Comportamento manipulativo profissional e interpessoal: o sociopata-alfa manipula as pessoas e os sistemas políticos e sociais para causar confusão, avançar na própria carreira ou destruir a das outras pessoas. Os sociopatas-alfa usam a mentira, a distorção, a enganação e a omissão para manipular os sistemas públicos e políticos para minimizar o risco de serem identificados como “manipuladores”. Eles também recrutam membros ingênuos e desavisados dos partidos para ajuda-los em suas manipulações e também usam pessoas para criarem situações vantajosas para si mesmos.

Comportamento antiético: Como códigos de conduta moral e ética não significam nada para os sociopatas-alfa, eles prometem mais do que são capazes de cumprir, chantageiam pessoas para obter apoio político, têm relações sexuais com pessoas que são seduzidas pela sua imagem de poder, publicam informações falsas para se promoverem e assumem créditos devidos a outras pessoas. As “falhas na lei” são plenamente exploradas e as leis que eles propõe são distorcidas ou privilegiam as classes mais abastadas da sociedade.

Intolerantes: Normalmente os sociopatas-alfa são intolerantes com os subordinados, arrogantes e manipuladores, gerando assédios morais e sexuais de diversas formas e situações. Quando não conseguem manipular os colegas de partido ou quando não conseguem se eleger numa sigla, mudam de partido e fazem associações fraudulentas e corporativas. Raramente cumprem com suas funções, delegando-as para seus assessores e aspones (“assessor de porra nenhuma”) de diversos graus e naturezas.

Imprevisível: Os sociopatas-alfa muitas vezes têm comportamento impulsivo e errático, mudando constantemente de projetos que seguem suas emoções superficiais. Também reagem ao sabor dos fatos políticos e sociais, fazendo declarações que logo em seguida podem ser desmentidas ou redimensionadas pelo próprio autor das ideias.

Comportamento parasita: Inclui assumir o crédito pelo trabalho dos outros, enganar as pessoas para fazer os seus trabalhos ou delegar todas as tarefas para os seus assessores e auxiliares inferiores. Métodos usados pelos sociopatas-alfa: 1. Usar de intimidação e de ameaças para coagir os assessores ou outros colegas de partido para fazerem o trabalho dele; 2. Identificar uma pessoa mais fraca ou vulnerável e usar seus pontos fracos para manipula-la; 3. Se mostrar incapaz ou impossibilitado de executar a tarefa e gerando compaixão, culpa ou simpatia nos seus subalternos, chantagear para que eles façam o seu trabalho. Além disso, eles não se sentem constrangidos por causar pressão, estresse ou medo em seus assessores.

Irresponsáveis: Eles nunca assumem a culpa por nada que dá errado em suas atividades; é sempre culpa de outra pessoa, ou falha de comunicação, ou imposição de outro partido ou da mídia. Os sociopatas-alfa sempre se prontificam para estar na frente de projetos que os farão parecer bem na mídia e com apoio do partido. Quando os projetos ou planos políticos não dão certo, eles culpam o sistema internacional, a pressão dos outros partidos ou a intervenção nociva da imprensa. Quando acusados, ficam furiosos e indignados por “desconfiarem da sua honestidade”, mas não fazem nada para provar o contrário.

Busca do poder: Os sociopatas-alfa vivem em função do poder durante toda a sua vida. Eles adoram sentir que têm a vida e o destino das outras pessoas em suas mãos, quanto maior o número, maior o seu prazer. Gostam de sentir o domínio que possuem sobre os mais ricos que ele e gozam ao criar uma lei ou imposto que submete milhões ao seu projeto egoísta e destruidor. Eles constantemente se empenham em estratégias manipulativas e condutas antiéticas e enganadoras para continuar sua ascensão nas fileiras da organização partidária.

Criar conflito nos membros da organização: Quer seja nas Câmaras ou no Senado, os sociopatas-alfa gostam de criar conflitos entre os políticos de outros partidos e inclusive do próprio partido a fim de obterem mais controle sobre os seus colegas e filiados. Lançam mentiras, infiltram espiões e implantam escutas para poder manipular, chantagear e obter vantagens. Acabam por se tornarem líderes aos instigarem seus ataques e aliciarem seus aliados a criar ainda mais conflitos. Outra forma de criar conflitos é acusar os outros partidos ou os seus rivais com rumores falsos, acusações ou ataques indiretos ou frontais, jogando a opinião pública contra seus opositores.

Desonestidade: Serem enganadores e criarem estratégias desonestas são características habituais dos sociopatas-alfa. Eles pesquisam o que as pessoas querem ouvir e mentem desavergonhadamente, prometendo obras ou mudanças na política que nunca irão cumprir. Sempre fazem promessas irreais e dizem que farão a diferença na política. Discursam sobre o quanto são honestos, bons e responsáveis e o quanto amam o seu país e o seu povo.

Charmosos e sedutores: Neste quesito, o povo gosta de votar em candidatos bonitos e bem apresentáveis, charmosos e sedutores. Muitas vezes eles são otimistas e dão a impressão que têm amplo conhecimento de política e economia e quando são pressionados para definir melhor seus planos de governo se limitam a culpar o governo anterior e desviar a atenção do que realmente estão propondo. Quando a falta de conhecimento do sociopata-alfa é descoberta, ele não mostra muita preocupação (se é que mostra alguma) e disfarça a falha em sua história mudando os fatos.

Corrupção: Como nos diz Ana Beatriz Silva, “a política propicia o exercício do poder de forma quase ilimitada. A “renda” material que eles podem obter também é praticamente incalculável, quando exercem a profissão de forma ilegal. E o fato de terem um foro privilegiado quase lhes assegura de forma impune o exercício do poder com outros fins que não sejam os de servir aos interesses da nação. Todos esses ingredientes fazem uma pizza gostosa de comer, com possibilidade de indigestão quase nula. No Brasil, esse fenômeno torna-se mais gritante porque a impunidade funciona como uma doença crónica e deriva de um somatório que inclui um sistema policial deficitário, um aparelho judiciário emperrado e um código processual retrógrado. Esse fato pode ser facilmente verificado pelas inúmeras manchetes que diariamente noticiam os diversos crimes cometidos por maus políticos: lavagem de dinheiro público, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, evasão de divisas, crime de peculato, desvio de recursos de obras públicas, envio ilegal de dinheiro ao exterior, crime contra a administração pública e por aí vai.”

O Brasil, infelizmente, perdeu com o governo do Lula uma condição essencial para a Democracia: a oposição! Um país democrático sem qualquer oposição ao governo dominante é extremamente perigoso porque perde todo o controle do abuso de poder. E o que vemos hoje em nosso país é um único partido atuante: o Partido da Corrupção. Vemos na mídia políticos ocultando dinheiro de corrupção nas cuecas, deputada fazendo a “dança da pizza” no plenário; políticos membros do Conselho de Ética mentindo deslavadamente na cara dura e protegendo outros sociopatas-alfa dilapidadores da riqueza e da moral de todo um povo; senador cassado por acusação de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso, voltando ao seu cargo sob apoio da maioria do senado; e por aí afora.

Se olharmos para a história da humanidade, uma das coisas mais absurdas e revoltantes é percebermos que 4% de sociopatas (280 milhões de pessoas) governam e comandam 96% de neuróticos (6,72 bilhões atualmente)! E que estes 96% se submetem a todo tipo de autoritarismo, corrupção, mentira e ditadura, raramente se posicionando ou se revoltando contra este estado de coisas.

Exemplos históricos de psicopatias e ditadores como os abaixo mostram a dominação, destruição e morte que eles são capazes de fazer:

Slobodan Milosevic, Iugoslávia (Responsável por até 230 mil mortes)

Idi Amin Dada, Uganda, o canibal “Açougueiro da África”  (Responsável por até 500 mil mortes)

Hadji Mohamed Suharto, Indonésia (Responsável por até 750 mil mortes, apoiado pela CIA)

Theoneste Bagosora, Ruanda, o “Coronel Morte” e “Milosevic de Ruanda” (Responsável por até 800 mil mortes das etnias tutsis e hutus moderados)

Pol Pot, Camboja (Responsável por 1,9 milhões de mortes, condenava condenação por traição até as pessoas que chegavam atrasadas ao trabalho)

Saddam Hussein, Iraque (Responsável por 2 milhões de mortes da etnia curda, dos xiitas marsh, iranianos, quaitianos e outros, inicialmente apoiado pelos EUA)

Joseph Stalin, União Soviética (Responsável por mais de 20 milhões de mortes)

Adolf Hitler, Alemanha (Responsável por mais de 40 milhões de mortes)

Mao Tsé-Tung, China (Responsável por mais de 70 milhões de mortes, seu regime de terror levou ao assassinato de “contra-revolucionários”, proprietários rurais e inimigos políticos e até mesmo de vários ex-companheiros, militantes comunistas expurgados sob as mais variadas justificativas.) 21

Creio que um dos fatores que mais contribui para a passividade das massas são as crenças religiosas que nos ensinam há milênios, do tipo:

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” Mateus 5:3-10

Estas crenças fazem com que as pessoas fiquem passivas perante o mal causado pelos sociopatas-alfa, dizendo que “Deus está vendo” e que “no futuro eles pagarão pelo mal que fazem”. Outras frases deste tipo: “a justiça tarda mas não falha”; “no Dia do Julgamento haverá a separação do joio e do trigo”; além disso, o sofrimento que as pessoas experimentam está garantindo a sua bem-aventurança no “reino dos justos”. Por isso já dizia Martin Luther King: A tragédia final da humanidade não é a opressão e a crueldade das pessoas más, mas é o silêncio das pessoas boas a este respeito”.

Poderíamos até questionar se estas pessoas realmente são “boas” ou se são apenas omissas e neutras. Muitas pessoas pensam que “não ser mal” é o mesmo que “ser bom”. Mas como uma pessoa pode ser boa se ela não faz o bem? E se, além de não fazer o bem ela julga o outro como mal e deseja a justiça sobre ele, como e porque ela seria uma boa pessoa?

Pessoas boas são aquelas que fazem ativamente o bem, que sofrem com a dor do próximo e que se mobilizam para aliviar o sofrimento dos outros. Mas, na maioria das vezes, estas atitudes apenas maquiam o verdadeiro problema e diminuem os sofrimentos causados pelos sociopatas que estão no poder. Neste sentido, as 10 profissões em que menos encontramos psicopatas são aquelas que exigem um contato mais caloroso e humano, sem dar status ou poder:

1. Cuidador (de doentes e de idosos)

2. Enfermeira

3. Terapeuta

4. Artesão

5. Estilista

6. Voluntários

7. Professor

8. Artista

9. Médico (clínicos – os cirurgiões estão na outra lista)

10. Contador

Até quando bilhões de pessoas se submeterão ao domínio ignominioso dos sociopatas-alfa? Até quando suas sedes de poder escreverão a história da humanidade com injustiça. mentira e corrupção, preenchendo os livros com o sangue e o suor do povo submetido aos seus delírios de grandeza?

Até quando você, leitor, pensará que é uma boa pessoa, enquanto se mantém submetido ao poder maléficos dos sociopatas?

Fontes: 

  1. http://super.abril.com.br/ciencia/seu-amigo-psicopata-446474.shtml
  2. http://super.abril.com.br/cotidiano/psicopatas-s-629048.shtml
  3. http://super.abril.com.br/cotidiano/conheca-historia-criancas-ja-nascem-686177.shtml
  4. http://super.abril.com.br/cotidiano/anjos-malvados-620216.shtml
  5. http://www.psicopatia.com.br/mentecruel.php
  6. Robert Simon – “Homens maus fazem o que os homens bons sonham” p. 28.
  7. John Clarke – “Trabalhando com monstros
  8. Silva, Ana B. B., “Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado; 2008, pp 16-17.
  9. Idem, p. 37.
  10. Idem, p. 40
  11. Idem, p. 101.
  12. Idem, pp. 101-102
  13. Idem, pp 179-180.
  14. Kevin Dutton The Wisdom of Psychopaths: What Saints, Spies, and Serial Killers Can Teach Us About Success”  
  15. http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/quais-profissoes-mais-atraem-psicopatas/ Carol Castro 8 de novembro de 2012
  16. http://www.wisdomofpsychopaths.com/index.html
  17. http://www.amazon.com/The-Wisdom-Psychopaths-Killers-Success/dp/0374291357
  18. http://www.theglobeandmail.com/life/health-and-fitness/health/how-can-you-tell-if-someone-is-a-psychopath-not-all-are-predators/article4705262/
  19. http://www.fae.br/cur_psicologia/literaturas/Psicopatia_e_Sociopatia.pdf
  20. John Clarke – “Trabalhando com monstros”; “Definindo o monstro”, p. 12.
  21. http://www.acidezmental.xpg.com.br/top_10_genocidas.html

 

 

 

 

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