O poder corrompe? 2ª parte

O poder corrompe?

 

Voltando aos sociopatas, Robert Simon escreve:

“Grande parte do que o mundo classifica como sendo o “mal” se origina do egocentrismo patológico de indivíduos que buscam autossatisfação imediata e usam outras pessoas em benefício de sua autovalorização. Para os psicopatas, o mundo é uma imensa máquina automática da qual obtém a guloseima sem colocar nenhuma moeda. Em seus relacionamentos, menosprezam a outra pessoa, são cobiçosos, apropriam-se de seus bens ou suas ideias e acham que têm esse direito. Os psicopatas não acreditam em ninguém e são incapazes de confiar nos demais, o que representa outro aspecto de sua impressionante incapacidade de sentir empatia ou assumir compromissos com outras pessoas.” 1

Uma questão importante neste ponto para diferenciarmos os sociopatas das pessoas “normais” é que estas às vezes fazem grandes maldades e produzem grandes sofrimentos, baseadas em uma frase que constantemente repito: “Se todo mundo acha que está certo e se todo mundo acha que o diferente está errado, quem está certo e quem está errado?” Por que, para todo mundo, o errado é o diferente? Esta questão é fundamental por que explica a quantidade absurda de crimes cometidos em nome da “verdade” e do “bem”. E vemos isto respaldado e justificado em muitas religiões pelos seus próprios deuses:

Antigo Testamento:

Disse mais Moisés: Assim o SENHOR tem dito: À meia noite eu sairei pelo meio do Egito; E todo o primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que haveria de assentar-se sobre o seu trono, até ao primogênito da serva que está detrás da mó, e todo o primogênito dos animais.  Êxodo 11:4-5

E aconteceu, à meia noite, que o SENHOR feriu a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais. E Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos, e todos os egípcios; e havia grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto. 
Êxodo 12:29-30

Então eu vos trouxe à terra dos amorreus, que habitavam além do Jordão, os quais pelejaram contra vós; porém os entreguei nas vossas mãos, e possuístes a sua terra, e os destruí de diante de vós. Josué 24:8

Calai-vos perante mim, ó ilhas, e os povos renovem as forças; cheguem-se, e então falem; cheguemo-nos juntos a juízo. Quem suscitou do oriente o justo e o chamou para o seu pé? Quem deu as nações à sua face e o fez dominar sobre reis? Ele os entregou à sua espada como o pó e como pragana arrebatada pelo vento ao seu arco. Isaías 41:1-2

Hinduísmo:

No grande texto épico hindu Mahabharata, encontra-se “A Guerra de Kurukshetra”, uma parte do Bhagavd Gita, aonde existe uma luta entre clãs irmãos, os Kauravas e os Pandava, pelo trono de Hastinapura. Nesta batalha que durou 18 dias, encontra-se a conversa entre o arqueiro Pandava de nome Arjuna e Krishna, expondo a relutância de Arjuna em lutar contra os seus próprios familiares, já que entre os dois grupos existem muitos parentes e amigos:

“Ó Krishna, a visão de meu próprio povo reunido para lutar entre si, faz minhas forças se exaurirem, meus membros perdem a força, e minha boca seca, meu corpo estremece e meu cabelo se arrepia. Gandiva (o arco de arjuna) desliza de minha mão, a minha pele queima; e eu não posso estar de pé, minha mente está em confusão;  vejo maus presságios, Keshava;  não vejo nada de bom em matar em guerra os meus parentes, amigos e companheiros. 

“Eu não quero matá-los, embora com isso eu governaria os três mundos, ó Krishna, quanto mais por um pedaço de terra! Derrotando os filhos de Dhritarashtra, que alegria estaria em meu coração, Janardana (Krishna)? O remorso irá nos atacar por matar os nossos consanguíneos. Então nós não deveríamos matar os filhos de Dhritarashtra, nossos parentes. Como  nós poderíamos ser felizes exterminando a nossa própria raça, ó Madhava?

“De onde vem está terrível fraqueza, ó Arjuna? Esta fraqueza é indigna de um homem e faze-te infeliz, pois te fecha as portas do céu. Você não é um covarde, ó Partha! Isto não combina com você. Abandone a covardia, seja resoluto e bravo, levanta-te, ó destruidor de inimigos!”

Segundo o livro, o exército dos Pandavas, comandado pelo Dhristadyumna, estava dividido em sete divisões, totalizando 1.530.900 homens, enquanto que seus rivais, os Kauravas, liderados por Brishma somavam 11 divisões de 2.405.700 homens. A batalha custou caro para ambos os lados, sobrevivendo apenas 8 Pandavas e 4 Kauravas ao final. 2

Islamismo:

No Alcorão, alguns exemplos da Jihad, que aparece em 164 versos sobre o tema:

[4.74] Que combatam pela causa de Deus aqueles dispostos a sacrificar a vida terrena pela futura, porque a quem combater pela causa de Deus, quer sucumba, quer vença, concederemos magnífica recompensa. [4.75] … combater pela causa de Deus… [4.76] Os fiéis combatem pela causa de Deus; os incrédulos, ao contrário, combatem pela do sedutor. Combatei, pois, os aliados de Satanás… [4.77] … Mas quando lhes foi prescrita a luta… Ó Senhor nosso, por que nos prescreves a luta?…

[5.33] O castigo, para aqueles que lutam contra Deus e contra o Seu Mensageiro e semeiam a corrupção na terra, é que sejam mortos, ou crucificados, ou lhes seja decepada a mão e o pé opostos, ou banidos.

[8.01] … Os espólios [de Guerra] pertencem a Deus e ao Mensageiro…

[8.15] … quando enfrentardes (em Jihad) os incrédulos, não lhes volteis as costas. [8.16] …a  menos que seja por estratégia… [8.17] Vós que não os aniquilastes, (ó muçulmanos)! Foi Deus quem os aniquilou; e apesar de seres tu (ó Mensageiro) quem lançou (areia), o efeito foi causado por Deus.

[66.09] combate com denodo os incrédulos e os hipócritas, e sê inflexível para com eles, pois a sua morada será o inferno… 3

Os que se consideram “bons” desejam tanto a justiça contra os maus, que São Tomás de Aquino (1227-1274), chegou a escrever: “Para que os santos possam desfrutar de sua beatitude e da graça de Deus mais abundantemente, lhes é permitido ver o sofrimento dos condenados no inferno.” 4

Baseado neste conceito teológico de que Deus instiga o seu povo para a guerra, o biológo Richard Dawkins escreveu “Deus, um delírio, aonde ele procura mostrar como as religiões alimentam a guerra, fomenta o fanatismo e doutrinam as crianças. “Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem”, diz ele no prefácio. Escreve ele: “Imagine, junto com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, sem a Conspiração da Pólvora, sem a partição da índia, sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição de judeus como “assassinos de Cristo”, sem os “problemas” da Irlanda do Norte, sem “assassinatos em nome da honra”, sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro dos ingênuos (“Deus quer que você doe até doer”). Imagine o mundo sem o Talibã para explodir estátuas antigas, sem decapitações públicas de blasfemos, sem o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado em um centímetro.” 5

Historicamente, Dawkins não deixa de ter razão, e está mais correto do que Marx quando este criou o mito da “luta de classes”; aqui seriam diferentes deuses (Yahveh, Allah, Baal, Astarte, Quemós, Milcom, etc.) lutando entre si através dos seus povos e tribos protegidas (Não terás outros deuses diante de mim. Êxodo 20:3)… Seria uma “luta de poderes e primazias divinas”… Mas, e se víssemos esta questão sob a ótica do sociopata, induzindo o povo a crer que aquela era a vontade de Deus? Lembre-se que os religiosos estão em 8º lugar entre as profissões que mais têm sociopatas!

Existe uma questão psicológica e antropológica importante para levantarmos aqui, que é o “princípio da aceitação social”. Nos primeiros anos de vida, se uma criança ou animal mamífero não for aceita em seu grupo, muito provavelmente morrerá. E se em seus anos futuro também não for aceito pelo seu grupo, terá que sobreviver com seus únicos esforços, o que será muito mais difícil do que junto com a sua comunidade ou bando. Quando um animal nasce doente ou uma criança indígena nasce com algum padrão diferenciado da tribo, tende a ser abandonada à morte.

“O infanticídio é comum em determinadas espécies animais. É uma forma de selecionar os mais aptos. Quando têm gêmeos, os saguis matam um dos filhotes, assim como as mães pandas. Chimpanzés e gorilas abandonam as crias defeituosas. Também era uma prática recorrente em civilizações de séculos atrás. Em Esparta, cidade-estado da Grécia antiga que primava pela organização militar de sua sociedade, o infanticídio servia para eliminar aqueles meninos que não renderiam bons soldados.

Entre os índios brasileiros, o infanticídio foi sendo abolido à medida que se aculturavam. Mas ele resiste, principalmente, em tribos remotas – e com o apoio de antropólogos e a tolerância da Funai. É praticado por, no mínimo, treze etnias nacionais. Um dos poucos levantamentos realizados sobre o assunto é da Fundação Nacional de Saúde. Ele contabilizou as crianças mortas entre 2004 e 2006 apenas pelos ianomâmis: foram 201.

Uma história verídica e chocante é da jovem índia Hakani, nascida em 1995 na tribo dos índios suruuarrás, que vivem semi-isolados no sul do Amazonas, que foi condenada à morte quando completou 2 anos, porque não se desenvolvia no mesmo ritmo das outras crianças. Escalados para ser os carrascos, seus pais prepararam o timbó, um veneno obtido a partir da maceração de um cipó. Mas, em vez de cumprirem a sentença, ingeriram eles mesmos a substância. O duplo suicídio enfureceu a tribo, que pressionou o irmão mais velho de Hakani, Aruaji, então com 15 anos, a cumprir a tarefa. Ele atacou-a com um porrete. Quando a estava enterrando, ouviu-a chorar. Aruaji abriu a cova e retirou a irmã. Ao ver a cena, Kimaru, um dos avôs, pegou seu arco e flechou a menina entre o ombro e o peito. Tomado de remorso, o velho suruuarrá também se suicidou com timbó. A flechada, no entanto, não foi suficiente para matar a menina. Seus ferimentos foram tratados às escondidas pelo casal de missionários protestantes Márcia e Edson Suzuki, que tentavam evangelizar os suruuarrás. Eles apelaram à tribo para que deixasse Hakani viver. A menina, então, passou a dormir ao relento e comer as sobras que encontrava pelo chão. “Era tratada como um bicho”, diz Márcia. Muito fraca, ela já contava 5 anos quando a tribo autorizou os missionários a levá-la para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em São Paulo. Com menos de 7 quilos e 69 centímetros, Hakani tinha a compleição de um bebê de 7 meses. Os médicos descobriram que o atraso no seu desenvolvimento se devia ao hipotireoidismo, um distúrbio contornável por meio de remédios.” 6

Durante a infância, a rejeição indica morte certa. Já na adolescência ou idade adulta não garante a morte, mas grandes dificuldades de sobrevivência. Por isso o ser humano normalmente tenta, sob todas as formas, se adaptar ao grupo para ser aceito por ele. Por milênios, os diferentes foram excluídos, até que criou-se atualmente o conceito de “inclusão social”.

Aquele que insiste em ser diferente é frequentemente expulso do grupo e abandonado à própria sorte. Carl Jung chama isso de “individuação”, ou o processo de autoconhecimento.

A individuação, conforme descrita por Jung, é um processo através do qual o ser humano evolui de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o que implica uma ampliação da consciência. Através desse processo, o indivíduo identifica-se menos com as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se encontra e mais com as orientações emanadas do Si mesmo, a totalidade (entenda-se totalidade como o conjunto das instâncias psíquicas sugeridas por Carl Jung, tais omo persona, sombra, self, etc.) de sua personalidade individual. Jung entende que o atingimento da consciência dessa totalidade é a meta de desenvolvimento da psique, e que eventuais resistências em permitir o desenrolar natural do processo de individuação é uma das causas do sofrimento e da doença psíquica, uma vez que o inconsciente tenta compensar a unilateralidade do indivíduo através do princípio da enatiodromia.

Jung ressaltou que o processo de individuação não entra [necessariamente] em conflito com a norma coletiva do meio no qual o indivíduo se encontra, uma vez que esse processo, no seu entendimento, tem como condição para ocorrer que o ser humano tenha conseguido adaptar-se e inserir-se com sucesso dentro de seu ambiente, tornando-se um membro ativo de sua comunidade. O psicólogo suíço afirmou que poucos indivíduos alcançavam a meta da individuação de forma mais ampla. 7

Quem não se lembra da história de Fernão Capelo Gaivota, romance de Richard Bach, publicado em 1970? A primeira parte do livro mostra o jovem Fernão Capelo Gaivota frustrado com o materialismo e o significado da conformidade e da limitação da vida de uma gaivota. Ele é confrontado com paixão pelos voos de todos os tipos, e sua alma descola com as suas experiências e emocionantes triunfos de ousadia e feitos aéreos. Eventualmente, a sua falta de conformismo à limitada vida de gaivota leva-o a entrar em conflito com o seu bando e virarem-se contra ele. Ele torna-se um banido:

“Nesse dia não perdeu tempo conversando com as outras gaivotas e voou até depois do pôr-do-sol. Descobriu o “loop”, o “slow roll”, o “point roll”, o “inverted spin”, o “gull bunt”, o “pinwheel”.

Quando Fernão Gaivota se juntou ao bando na praia era já noite cerrada. Esta tonto e tremendamente cansado. Apesar disso, não resistiu ao prazer de voar num “loop” para terra e de fazer um “snap roll” antes de aterrar. “Quando souberem do triunfo”, pensava, “ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! PODEMOS APRENDER A VOAR!”

Os anos vindouros brilhavam e trauteavam promessas. As gaivotas estavam reunidas em conselho quando ele aterrou, e, segundo parecia, já estavam em reunião havia algum tempo. Na realidade, estavam à espera dele.

— Fernão Capelo Gaivota! É chamado ao centro! — As palavras do Mais Velho foram pronunciadas no tom mais solene. Ser chamado ao centro só podia significar grande vergonha ou grande honra. Ser chamado ao centro por honra era a maneira como eram designados os principais chefes das gaivotas. “Claro”, pensou, “o Bando da Alimentação esta manhã viu o triunfo! Mas eu não quero honras. Não me interessa ser chefe. Só quero partilhar o que descobri, mostrar a todos esses horizontes que estão à nossa frente.” Avançou um passo.

— Fernão Gaivota — disse o Mais Velho — é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes!

Foi como se lhe batessem com uma tábua. Os joelhos enfraqueceram lhe, um enorme rugido ensurdeceu-o. “Ser chamado ao centro por vergonha? Impossível! O triunfo! Eles não podem compreender! Estão errados, estão errados!”

— … pela sua desastrada irresponsabilidade — entoava a voz solene —, por violar a dignidade e a tradição da família das gaivotas… ser chamado ao centro por vergonha significava que seria banido da sociedade das gaivotas, desterrado para uma vida solitária nos Penhascos Longínquos.

— … um dia Fernão Capelo Gaivota aprenderá que a irresponsabilidade não compensa. A vida é o desconhecido e o desconhecível, mas não podemos esquecer que estamos neste mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos. Uma gaivota nunca contesta o conselho do bando, mas a voz de Fernão ergueu-se gritando:

— Irresponsabilidade? Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida? Passamos mil anos lutando por cabeças de peixe, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres! Deem-se uma oportunidade, deixem-me mostrar-lhes o que descobri…

O bando mostrou-se impenetrável como a pedra.

— Quebrou-se a irmandade — entoaram em conjunto todas as gaivotas, e, em perfeito acordo, taparam solenemente os ouvidos e viraram-lhe as costas.” 8

Para a maioria dos animais e seres humanos, serem abandonados à própria sorte é prenúncio de um fim trágico e rápido:

“Para evitar isso, os animais mais fracos se reúnem junto ao macho alfa, oferecendo-lhe serviços à custa de proteção e disseminação dos seus genes. E entre os seres humanos surge um fenômeno conhecido como “A unanimidade burra de Solomon Asch”, ou o “Experimento de Conformidade”, que mostra como em grupo o ser humano pode abandonar o que é certo pela aceitação do grupo onde está.

O estudo de conformidade de Solomon Asch dá indícios sobre o poder de influência que os grupos exercem sobre os indivíduos. Mostra que o simples desejo de pertencer a um ambiente homogêneo faz com que as pessoas abram mão de suas opiniões, convicções e individualidades.

Imagine crianças e adolescentes que são forçados a permanecerem longos períodos de tempo convivendo em grupos a que eles não escolheram pertencer, como a classe da escola, por exemplo. Em ambientes onde o diferente acaba marginalizado ou ridicularizado, a pressão por seguir o grupo pode ser irresistível a um jovem com pouca maturidade ou personalidade. E, assim, muitos começam a fumar, beber e usar drogas.

Mas nem só em ambientes mais inocentes encontramos indivíduos sucumbindo à multidão. A tendência de seguir a opinião dos outros comumente é chamada de efeito manada em finanças, identificando um movimento onde os investidores seguem determinada direção, polarizando a tendência do mercado. Atitudes semelhantes podem ser observadas, também, em algumas religiões, agremiações políticas, moda e diversos outros grupos de indivíduos cujas preferências mudam com o tempo. Ou seja, todos.

Ainda que a vida em sociedade dependa de consensos, eles só serão produtivos na medida em que os indivíduos contribuírem com suas experiências pessoais e considerações particulares. Quando o consenso é produto da dominação ou da conformidade, o processo social é corrompido e os valores individuais são deixados de lado.

Fato é que, de maneira consciente ou não, estamos todos sujeitos às pressões do ambiente, seja ele físico ou psicológico. Há várias situações em que nossas atitudes são fortemente influenciadas por essas pressões e muitas formas de explorar tal comportamento – para o bem e para o mal. O que precisamos é estar atentos a essas armadilhas e identificar – de forma sincera, humilde e desprendida – que tipo de decisões tomamos por nossa própria e independente vontade e quais as que visam a paz de espírito de não ir contra a multidão.

No estudo de Asch eram colocados 3 a 7 artistas junto com uma pessoa a ser testada a dar uma resposta correta. Após os 3 artistas darem uma resposta errada, 75% dos testados davam a mesma resposta errada, negando o que estavam vendo e entram em conformidade com o que as outras pessoas disseram; e não porque havia motivos legítimos para a incerteza. Mas sim porque elas foram levadas pela força da conformidade com a união unânime do grupo. Os cientistas atribuem este comportamento a um fenômeno conhecido como “pensamento de grupo”. O desejo de ser aceito supera o desejo de fazer o que é certo.” 9

No total da experiência de Asch, 123 voluntários (reais) participaram da pesquisa e eles sempre eram os últimos ou penúltimos a responder. Nos dois primeiros testes os assistentes respondiam de forma correta, para deixar o voluntário à vontade, confiante. Mas nos quatorze seguintes eles deveriam errar doze, de modo que o voluntário não desconfiasse de alguma armação – o que ocorreu em poucas ocasiões e os resultados foram desconsiderados no cômputo final. Além disso, eles erravam juntos, apontando a mesma linha. Considerando que a estimativa de respostas erradas nesse tipo de teste é de menos de 1 em 35 (menos de 3%), os resultados foram assombrosos:

75% dos participantes escolheram a alternativa errada ao menos uma vez;

37% dos voluntários erraram a maioria das respostas;

5% deles acompanharam a opção incorreta todas as vezes.

Asch e seus colegas ficaram intrigados com o efeito opressor que um grupo poderia exercer sobre seus indivíduos e resolveu investigar mais a fundo os fatores que mais determinavam esse tipo de influência. As posteriores variações do experimento verificaram que:

O tamanho do grupo influi negativamente de forma diretamente proporcional e até um certo limite. Quando confrontado com apenas um outro participante, o indivíduo praticamente não mudava de opinião. Contra dois assistentes, o voluntário aceitava a resposta errada em 13,6% das vezes. Se fossem três adversários, o erro subia para 31,8% e permanecia estável. Isto é: a partir de três oponentes o tamanho da unanimidade já não fazia mais tanta diferença.

Um aliado aumenta a resistência, pois quando o inocente voluntário tinha o apoio de outro indivíduo na sua discordância, as chances de ele mudar de opinião em favor da maioria caíam em 75%. O interessante era que o aliado nem precisava escolher a resposta certa. Bastava que ele divergisse da maioria. No caso ilustrado anteriormente, por exemplo, se todos escolhessem “A” e o aliado escolhesse “B”, já era suficiente para que o voluntário se sentisse mais à vontade para apontar a correta resposta “C”.

A discrepância do erro não influi no resultado, apesar de a intuição sugerir o contrário. Ainda que as figuras fossem exageradamente diferentes umas das outras, isso não diminuía a incidência de respostas erradas do voluntário.

Isso significa que, independentemente do absurdo da situação, a cega imitação das atitudes de um grupo pode nos levar a comportamentos que sequer cogitaríamos individualmente. 10

A sobrevivência humana dependeu de aceitação em grupos sociais:

“De acordo com os pesquisadores Nathan DeWall, da Universidade do Kentucky, e Brad Bushman, da Universidade de Ohio, fazer parte de um grupo é algo inerente ao ser humano. Somos presas fáceis no ambiente selvagem e viver em grupo é o que nos fez sobreviver em um mundo hostil. Por isso as pessoas se sentem protegidas quando estão na companhia de iguais, mesmo em uma sociedade onde os perigos são menores do que no ambiente das savanas ou selvas pré-históricas.

Mas da mesma forma que a aceitação nos traz conforto, a rejeição pode ser muito danosa, afinal, os sentimentos associados a isso podem ser intensos. Ser rejeitado é ruim até mesmo para a saúde.

“Pessoas que se sentem isoladas e solitárias podem ter uma piora na saúde de forma geral”, diz. Elas podem ter dificuldades para dormir, alterações no sistema imunológico e mesmo diminuição na expectativa de vida em comparação com pessoas que têm um grupo social mais amplo e que as apoia, completa DeWall.” 11

Por isso a grande necessidade das minorias em serem aceitas pelos grupos maiores da sua sociedade. Os homossexuais, por exemplo, foram por milênios em muitas culturas considerados passíveis de morte pelo seu comportamento “inadequado” ou “pecaminoso”. Assim como as minorias negras, indígenas ou tribais.

Essa aversão ao diferente se demonstra, por exemplo, no famoso Genocídio em Ruanda com o massacre perpetrado por extremistas majoritários hutus contra as minorias tutsis e hutus moderados, em Ruanda, entre 6 de abril e 4 de julho de 1994 .

De acordo com a jornalista britânica Linda Melvern, que teve acesso a documentos oficiais, o genocídio foi planejado. Segundo ela, o primeiro-ministro de Ruanda, Jean Kambanda, revelou que o genocídio foi discutido abertamente em reuniões de gabinete, e uma ministra teria dito que ela era “pessoalmente a favor de conseguir livrar-se de todo os tutsis… sem os Tutsis todos os problemas de Ruanda desapareceriam”.

Mais de 500.000 pessoas foram massacradas. Quase todas as mulheres foram estupradas. Muitos dos 5.000 meninos nascidos dessas violações foram assassinados. 12

As pessoas “comuns” são neuróticas em maior ou menor grau, e a neurose se resume basicamente ao conflito que as pessoas sentem entre agir de conformidade com seus impulsos instintivos básicos (Id) considerados maus ou inadequados e a definição social do que é bom e correto (Superego). Assim, quanto mais neurótica for a pessoa mais ela vai reprimir os seus impulsos e se adequar ao “socialmente correto”, ou sua Persona e mais ela vai projetar a sua Sombra nas pessoas que serão consideradas as erradas….

Sombra e Persona são definições criadas por Jung com os seguintes significados:

A sombra é o centro do inconsciente pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência na formação da personalidade durante a primeira infância. A sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Ela representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos.

  Nossa persona é a forma como nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo “persona” é derivado da palavra latina equivalente a máscara. As palavras “pessoa” e “personalidade” também estão relacionadas a este termo. 13

Nas relações sociais, a Sombra se projeta no outro, quando ele é considerado “diferente”:

Segundo Freud, a “projeção” é um mecanismo de defesa psicológico em que determinada pessoa “projeta” seus próprios pensamentos, motivações, desejos e sentimentos indesejáveis numa ou mais pessoas.  Assim, em psicologia a projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo, sejam pensamentos inaceitáveis ou indesejados, sejam emoções de qualquer espécie, são atribuídos a outra(s) pessoa(s). De acordo com Tavris Wade, a projeção psicológica ocorre quando os sentimentos ameaçados ou inaceitáveis de determinada pessoa são reprimidos e, então, projetados em alguém. 14

Um fenômeno de projeção que todos nós experimentamos com frequência ocorre quando estamos assistindo a um filme de ação ou uma novela e reagimos contra o vilão da história, querendo justiça contra ele. Quase universalmente, as boas e eternas histórias tem um mais vilões, que são os sociopatas da trama. Raras são as histórias infantis, os seriados, os filmes e as novelas onde o mal não esteja representado por algum personagem que acaba nos gerando sentimentos de aversão, raiva, medo e até ódio, criando o desejo de vingança, justiça e reparação (bruxa, lobo mal, rainha má, madrasta, assassino, estuprador, cientista maluco, etc.). As pessoas que se colocam no lugar dos “bons” julgam estes vilões como sendo do mal e desejam que eles recebam de alguma forma o castigo por suas maldades. Estendendo-se esta compreensão para a questão religiosa, fica fácil entender porque os bons acreditam que o seu deus irá julgar os outros deuses e as pessoas más das outras religiões e as matará e as condenará ao sofrimento eterno do Inferno! E, para aplacar o tédio de ficar eternamente sem fazer nada no Paraíso, os bons terão o privilégio de poder assistir “o sofrimento dos condenados no inferno” (Tomas de Aquino)!

Por isso também fica fácil entender porque as pessoas que são consideradas boas durante a maior parte de suas vidas se tornam assassinas cruéis em tempos de guerra, ainda mais quando esta guerra for “santa”: a luta de Moisés contra os egípcios; as lutas dos judeus contra os cananeus, os heteus, os amorreus, os perizeus, os heveus, os jebuseus, etc.; as batalhas de Átila, o “Flagelo de Deus” contra o ocidente cristão; a luta dos católicos contra os judeus, os muçulmanos e os protestantes; a destruição, pelos cristãos católicos, das culturas celta, maia, inca, polinésia, etc.; a Santa Inquisição e a Caça às Bruxas…

A maioria das pessoas que estiveram na frente destas batalhas não eram sociopatas; eram pessoas “boas” que acreditavam nos discursos inflamados dos seus líderes doentios em nome da Fé e da Salvação. Estes líderes sim, muitos deles, eram sociopatas-alfa, que ensandecidos pelo seu desejo de poder, riquezas e glórias, induziam ou obrigavam seus fiéis às batalhas. E estes iam acreditando que estavam lutando a favor do seu Deus e isto os garantiria o Paraíso dos bons e dos justos:

“E, depois destas coisas ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. Apocalipse 19:1-2”

Conhecendo a natureza humana, Jesus profetizou: “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Mateus 10:34-36” E também disse: “Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Mateus 26:52”

Existe uma frase bem conhecida que diz “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”. Ela foi proferida pelo ministro da propaganda nazista Paul Joseph Goebbels (1897-1945), que também disse de Hitler: “Este homem é perigoso, ele acredita no que diz”. 15

E o grande Cícero (105 a.C.-43 a.C.) já dizia: “Temo o homem de um só livro” [“Timeo hominem unius libri”], a mostrar o perigo da ignorância gerada por um único conhecimento, restrito e alienante. Frequentemente vemos que quanto mais ignorante é uma pessoa, mais convicta ela se acha; e quanto mais sábia, mais modesta e perplexa se torna perante a complexidade da vida e do universo.

Em relação ao poder dos governos, já antes mesmo da era cristã ele afirmava que: “Todo governo é inimigo de seu povo.” E explicou esta frase, dizendo: “Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos. Mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma. Um inimigo exterior não é tão perigoso, porque é conhecido e carrega suas bandeiras abertamente. Mas o traidor se move livremente dentro do governo, seus melífluos sussurros são ouvidos entre todos e ecoam no próprio vestíbulo do Estado. E esse traidor não parece ser um traidor; ele fala com familiaridade a suas vítimas, usa sua face e suas roupas e apela aos sentimentos que se alojam no coração de todas as pessoas. Ele arruína as raízes da sociedade; ele trabalha em segredo e oculto na noite para demolir as fundações da nação; ele infecta o corpo político a tal ponto que este sucumbe. Deve-se temê-lo mais que a um assassino.” 16

Nada mais digno para a descrição de um sociopata-alfa do que o velho e sábio Cícero. Este padrão histórico nunca mudou… Será que algum dia vai mudar?

Será que algum dia as pessoas que se consideram “boas” irão fazer alguma coisa para mudar este estado de opressão e domínio dos sociopatas sobre os neuróticos anônimos?

Por quanto tempo ainda será verdadeira esta frase de Martin Luther King “A tragédia final [da humanidade] não é a opressão e a crueldade das pessoas más [os sociopatas-alfa], mas é o silêncio das pessoas boas a este respeito”?

 

Fontes: 

  1. Robert Simon, “Homens maus fazem o que homens bons sonham”, Ed. Armed, 2009, p.55-56.
  2. Guerra de Kurukshetra – Wikipédia, a enciclopédia livre – https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Kurukshetra.
  3. 164 versos de Jihad no Alcorão, escrito por Yoel Natan em 15 de Outubro de 2012 – http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=12184&cat=Ensaios
  4. Tomás de Aquino – Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikiquote.org/wiki/Tom%C3%A1s_de_Aquino.
  5. Richard Dawkins, “Deus, um delírio”, Ed. Companhia das Letras, 2006 – pp. 18-19.
  6. Crimes na floresta- Revista VEJA, Edição 202115 de agosto de 2007, http://veja.abril.com.br/150807/p_104.shtml.
  7. Individuação – Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikipedia.org/wiki/Individua%C3%A7%C3%A3o.
  8. Richard Bach, “Fernão Capelo Gaivota, Ed. Record, 1970.
  9. Aceitação do errado por conformidade ao grupo – http://tenhaumatoalha.wordpress.com/2012/04/16/aceitacao-do-errado-por-conformidade-ao-grupo/.
  10. Experimentos em Psicologia – A unanimidade burra de Solomon Asch, 19/06/2009 – http://www.naopossoevitar.com.br/2009/06/experimentos-em-psicologia-a-unanimidade-burra-de-solomon-asch.html.
  11. Aceitação social e rejeição são temas centrais nas nossas vidas, 06/09/2011 – http://www.enfermagemesaude.com.br/noticias/4765/aceitacao-social-e-rejeicao-sao-temas-centrais-nas-nossas-vidas.
  12. Genocídio em Ruanda – Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_em_Ruanda.
  13. Carl Jung – http://mafiadodiva.tripod.com/CJUNG.html.
  14. Projeção (Psicologia) – Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikipedia.org/wiki/Proje%C3%A7%C3%A3o_(psicologia).
  15. Joseph Goebbels – Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikiquote.org/wiki/Joseph_Goebbels.
  16. Cícero – Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikiquote.org/wiki/C%C3%ADcero.

 

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