7. Os Conservadores e os Maus

teologia

Os Conservadores 

Outra elite que os petistas adoram atacar são os “conservadores reacionários”, particularmente dentre os religiosos católicos. Em um site muito curioso intitulado “60 pérolas de páginas de direita no Facebook: o ódio e a ignorância como ideologias”, podemos ler:

“Nessa semana eu visitei diversas páginas brasileiras de direita conservadora do Facebook. Uma das minhas intenções era ver o que o conservadorismo brasileiro tem a oferecer de ideias e propostas de sociedade para os brasileiros em geral. Mas não achei nada que lembrasse uma vontade de promover justiça, promover o bem.

Tudo o que eu achei foi ódio. Ódio contra tudo aquilo por que a esquerda libertária luta, e também por quem é ou era militantemente de esquerda. Ódio contra a luta LGBT, contra o respeito às diferenças, contra quem luta pela igualdade, contra o ambientalismo, contra o feminismo, contra os Direitos Humanos, contra o socialismo e o comunismo, contra a luta dos ateus por visibilidade e respeito, contra a onda nacional de protestos de junho, contra o pouquinho que existe de Estado de bem-estar social no Brasil, contra a distribuição de renda, contra a diversidade etnocultural e religiosa…

Não faltaram alianças com grupos e indivíduos fascistas, antidemocratas, ultramisóginos, fundamentalistas religiosos e homofóbicos.” 1

Realmente, se forem assim os conservadores, eles são a “elite brasileira”, o mal encarnado em forma de seres humanos, muitos deles pertencentes a facções religiosas “radicais e reacionárias”…

Achei mesmo interessante quando o autor do site escreve: “tudo o que achei entre os conservadores foi ódio contra tudo e todos que tenham como ideais a justiça, a igualdade, o progresso ético-moral, o chamado desenvolvimento social, o respeito e a paz.”

Normalmente quem se posiciona contra estes ideais “libertários” (aborto, casamento homoafetivo, feminismo, etc.) é a Igreja Católica Apostólica Romana, responsável por muitos embates com o PT.

A aversão da ideologia da esquerda em relação às religiões vem principalmente da famosa de Marx: “A religião é o ópio do povo!” Esta frase vem do livro “Crítica da filosofia do direito de Hegel”, de 1843 e diz, textualmente:

“Este é o fundamento da crítica religiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o auto sentimento do homem, que ou ainda não conquistou a si mesmo ou que já se perdeu. … A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidas. Ela é o ópio do povo.” 2

Um site socialista explica bem esta abordagem de Marx:

“O que Marx queria dizer é que a religião funciona no sentido de pacificar os oprimidos; e a opressão é definitivamente um erro moral. A religião — dizia ele — reflete o que falta na sociedade; é uma idealização das aspirações do povo que não podem ser satisfeitas de imediato. As condições sociais da Europa nos meados do século passado tinham reduzido os trabalhadores a pouco mais que escravos; as mesmas condições produziram uma religião que prometia um mundo melhor na outra vida.

Ainda segundo Marx, a religião não é apenas uma superstição ou uma ilusão. Ela tem uma função social: distrair os oprimidos da realidade de sua opressão. Enquanto os explorados e espezinhados acreditarem que seus sofrimentos lhes granjearão liberdade e felicidade no futuro, estarão considerando a opressão como parte de uma ordem natural — um fardo necessário e não uma coisa imposta pelos outros homens. É isso o que Marx queria dizer ao chamar a religião de “ópio do povo”: ela alivia sua dor, mas ao mesmo tempo, torna-os indolentes, nublando sua percepção da realidade e tirando-lhes a vontade de mudar.

O que Marx queria? Ele queria que as pessoas abrissem os olhos para as duras realidades do capitalismo burguês do século dezenove. Os capitalistas estavam extraindo mais e mais lucros a partir do trabalho do proletariado, ao mesmo tempo que “alienavam” os trabalhadores de sua auto realização. O que os trabalhadores mereciam, e poderiam obter se acordassem de sua sonolência, era o controle de seu próprio trabalho, a posse do valor que geravam com esse trabalho e, consequentemente, auto estima, liberdade e poder.

Para atingir esse fim, Marx clamava pela “abolição da religião como felicidade ilusória do povo.” Ele queria que eles buscassem a “felicidade real”, que na filosofia materialista de Marx era a liberdade e a realização neste mundo. Já que os ricos e poderosos não iriam entregar isso de graça, as massas teriam de tomá-lo. Daí, luta de classe e revolução.” 3

O Padre Paulo Ricardo, entre outros temas, fala em um vídeo da “guerra contra a família” que, segundo ele, é gerada pelo pensamento marxista de outrora (transcrito do vídeo em questão):

“Divórcio, depravação moral, perversão da educação dos filhos, propostas de casamentos alternativos, principalmente a união homossexual. Qual é a origem disso tudo? Será que a sociedade de repente ficou maluca por si mesma? Será tudo isso é simplesmente os tempos que amadureceram e que é inevitável? Trata-se de uma evolução da sociedade e que isso vai para a frente sem que ninguém possa freiar, sem que ninguém possa evitar? Qual é a origem disso tudo? A resposta é “Karl Marx” em seu Manifesto Comunista, que tinha a proposta socialista de abolir a propriedade privada para realizar a igualdade. Um ideal que vinha desde a Revolução Francesa. Ele queria criar uma sociedade de iguais e o que os desiguala é a propriedade. Texto: “Numa palavra, censurai-nos por querermos suprimir a vossa propriedade; certamente, é isso mesmo que queremos.” …

Marx, no fim da sua vida começou a enxergar uma realidade que ele não havia percebido antes: que aquilo que mais diferencia as pessoas não era necessariamente a propriedade privada, mas que estava em outro lugar: a família! Esta sua obra foi concluída por Engels: “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”. Esta obra tem uma intuição: todo o problema que nós vemos na sociedade, a opressão que os capitalistas realizam sobre o proletariado está presente já em germe dentro da própria família. A instituição família é perversa e é a origem da desigualdade social.

As pessoas já são formadas dentro da família para a desigualdade porque o que o capitalista faz com os proletários na sociedade, o pai de família faz com a mulher e os filhos, dentro da família. A família é perversa porque existe um macho que governa a mulher ou as mulheres (na poligamia) e os filhos, que são tratados como coisa, como propriedade deste pai de família. E Marx então cria toda uma teoria que não corresponde absolutamente à história e à verdade dos fatos, isso é típico de Marx. Marx, quando ele queria provar uma coisa, ele forjava; se ele não encontrava um argumento, ele inventava o argumento.

Então o argumento de Marx é o seguinte: na origem da sociedade primitiva havia o exercício livre do sexo e não existia esta instituição chamada família. E nesta horda primitiva onde se praticava o sexo indiscriminadamente, não se sabia quem era o pai das crianças que nasciam, o pai era desconhecido. Nesse tipo de sociedade necessariamente a mulher possui um papel muito superior, uma sociedade que tende a ser matriarcal porque todos os filhos têm mãe, mas ninguém tem pai.

Com a “invenção perversa da família”, diz Marx, a coisa se inverteu dramaticamente porque o homem começou a exigir fidelidade das suas fêmeas e com isso ele se tornou, por força física e por opressão, o proprietário daquelas mulheres e daquelas crianças. Aqui nós temos a raiz da desigualdade, a raiz da perversão básica da sociedade: os homens escravizam as mulheres e os filhos. Quando Marx teve esta intuição ele começou a elaborar esta obra, que foi terminada por Engels.

Lenin, o pai da Revolução Russa, dizia que esta era uma obra de “suma importância”, porque a finalidade última do socialismo é a criar a igualdade e a igualdade não acontece só entre as classes, mas também entre as pessoas. E se você tem na micro sociedade da família uma desigualdade, você precisa destruir a família. Então o que estamos vendo hoje é uma lenta tomada de consciência por parte dos marxistas desta intuição básica de Karl Marx de que, se nós quisermos uma sociedade de iguais, é preciso destruir a família.

Karl Marx também teve outra intuição no fim da sua vida: a de que não existia somente um meio para os comunistas chegarem no poder; falava-se da tomada de poder através das armas, mas também ele deixou aberta uma outra janela: a tomada do poder através da educação e do ensino da ideologia marxista e através das altas taxas de impostos que iriam gradualmente, de forma quase que imperceptível, transferindo a propriedade privada para a propriedade do Estado. … Aí nasceu a Via Socialista, o Caminho Socialista. A partir da queda do muro de Berlim, os partidos comunistas a partir da década de 90 se tornaram todos socialistas e deixaram o caminho da revolução armada para trilhar o caminho do marxismo cultural, que entra numa batalha cultural, cujo alvo principal é a família.

Por isso a destruição dos valores da família e dos valores cristãos não é uma realidade causual, mas tudo isso é buscado com muita clareza pelos teóricos marxistas. Em 1931 o Papa Pio XI pediu para que as pessoas estudassem a situação do socialismo daquela época e publicou uma encíclica chamada Quadragesimo Anno. Ele notou uma coisa: desde a encíclica Renum Novarum, o comunismo tinha perdido de alguma forma a sua popularidade por causa das dificuldades revolucionárias na Rússia (de 1917) e que havia um novo socialismo surgindo, que o papa chamou de “Socialismo Educacional”, ou “Pedagógico”. Número 121: “Estas doutrinas que Nós de novo com a Nossa suprema autoridade solenemente declaramos e confirmamos, devem aplicar-se também a um novo sistema de socialismo prático”; “propõe-se ele a formação das inteligências e dos costumes.” Ele usa a expressão que eles querem formar o “homem socialista”. Veja que o papa enxerga claramente um Socialismo Pedagógico e o que quer este socialismo pedagógico? Ele quer destruir a família.

Em 1969, um socialista sueco chamado Alva Mirdal publicou “A Caminho da Igualdade”, em que ele diz que para nós termos a igualdade, as crianças devem ser educadas de forma igual, de forma em que não haja mais distinção entre sexos, ou gêneros. Esta realidade está sendo implantada hoje, pelos manifestos socialistas. … Nós estamos imersos num sistema socialista cada vez mais totalitário e totalizante, que quer alcançar a educação dos nossos filhos. Para eles é primordial destruir a instituição família, que é uma instituição burguesa, capitalista e opressora. Portanto, nós católicos romanos que defendemos a família somos agentes do sistema opressor capitalista. … Nós seremos infiltrados, como já estamos sendo dentro da Igreja, e fazer com que as pessoas entendam que isso tudo faz parte dos tempos modernos e que o Cristianismo tem que se adaptar aos tempos modernos, a uma família “mais versátil”. 4

Quero deixar claro aqui que não sou católico e não defendo nenhuma linha religiosa específica, embora já tenha escrito e publicado dois livros sobre Teologia (“Os mitos e a realidade dos anjos e da Bíblia” – 1998, e “A grande revelação do ano 2000 – 2000), mas que versam sobre questões de contexto histórico, arqueologia e conceitos teológicos.

Buscando a fonte destas palavras do Padre Paulo Ricardo, encontramos que Engels escreve na citada obra, A origem da família, da propriedade privada e do Estado:

“A monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mulher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado, até então, na pré-história. Num velho manuscrito inédito, redigido em 1846 por Marx e por mim, encontro a seguinte frase: “A primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos”. Hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros. É a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade.” 5

“Não é melhor o estado de coisas quanto à igualdade jurídica do homem e da mulher no casamento. A desigualdade legal, que herdamos de condições sociais anteriores, não é causa e sim efeito da opressão econômica da mulher. No antigo lar comunista, que compreendia numerosos casais com seus filhos, a direção do lar, confiada às mulheres, era uma indústria socialmente tão necessária quanto a busca de víveres, de que ficavam encarregados os homens. As coisas mudaram com a família patriarcal e, ainda mais, com a família individual monogâmica. O governo do lar perdeu seu caráter social. A sociedade já nada mais tinha a ver com ele. O governo do lar se transformou em serviço privado; a mulher converteu-se em primeira criada, sem mais tomar parte na produção social. Só a grande indústria de nossos dias lhe abriu de novo – embora apenas para a proletária – o caminho da produção social. Mas isso se fez de maneira tal que, se a mulher cumpre os seus deveres no serviço privado da família, fica excluída do trabalho social e nada pode ganhar; e, se quer tomar parte na indústria social e ganhar sua vida de maneira independente, lhe é impossível cumprir com as obrigações domésticas. Da mesma forma que na fábrica, é isso que acontece à mulher em todos os setores profissionais, inclusive na medicina e na advocacia. A família individual moderna baseia-se na escravidão doméstica, franca ou dissimulada, da mulher, e a sociedade moderna é uma massa cujas moléculas são as famílias individuais.” 6

“Em todo caso, modificar-se-á muito a posição dos homens. Mas, também, há de sofrer profundas transformações a das mulheres, a de todas elas. Quando os meios de produção passarem a ser propriedade comum, a família individual deixará de ser a unidade econômica da sociedade. A economia doméstica converter-se-á em indústria social. O trato e a educação das crianças tornar-se-ão público; a sociedade cuidará, com o mesmo empenho, de todos os filhos, sejam legítimos ou naturais. Desaparecerá, assim, o temor das “consequências”, que é hoje o mais importante motivo social tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista econômico – que impede uma jovem solteira de se entregar livremente ao homem que ama. Não bastará isso para que se desenvolvam, progressivamente, relações sexuais mais livres, e também para que a opinião pública se torne menos rigorosa quanto à honra das virgens e à desonra das mulheres?” 7

“Também ele vê [Morgan] na evolução da família monogâmica um progresso, uma aproximação da plena igualdade de direitos entre ambos os sexos, sem considerar, entretanto, que esse objetivo tenha sido alcançado. Mas – diz – “se se reconhece o fato de que a família tenha atravessado sucessivamente quatro formas e se encontra atualmente na quinta forma, coloca-se a questão de saber se esta forma pode ser duradoura no futuro. A única coisa que se pode responder é que a família deve progredir na medida em que progrida a sociedade, que deve modificar-se na medida em que a sociedade se modifique; como sucedeu até agora. A família é produto do sistema social e refletirá o estado de cultura desse sistema. Tendo a família monogâmica melhorado a partir dos começos da civilização e, de uma maneira muito notável, nos tempos modernos, é lícito pelo menos supor que seja capaz de continuar seu aperfeiçoamento até que chegue à igualdade entre os dois sexos. Se, num futuro remoto, a família monogâmica não mais atender às exigências sociais, é impossível predizer a natureza da família que a suceder”.” 8

E o que escreve o Papa Pio XI em sua Encíclica Quadragesimo Anno? Vejamos:

Católicos e socialistas termos contraditórios

E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.

Socialismo educador

Estas doutrinas que Nós de novo com a Nossa suprema autoridade solenemente declaramos e confirmamos, devem aplicar-se também a um novo sistema de socialismo prático, ainda mal conhecido, mas que se vai propagando nos meios socialistas. Propõe-se ele a formação das inteligências e dos costumes; e ainda que se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem “socialista” que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo.

Na Nossa encíclica “Divini illlius Magistri” ensinamos desenvolvidamente os princípios, em que se funda, os fins, a que se dirige a pedagogia cristã. Quão contrários lhes sejam a teoria e a prática do socialismo educador, é tão claro e evidente, que é inútil insistir. Parecem porém ignorar ou não ter na devida conta os gravíssimos e funestos perigos deste socialismo, os que não tratam de lhe resistir forte e energicamente, como o pede a gravidade das circunstâncias. É dever do Nosso múnus pastoral chamar-lhes a atenção para a gravidade e eminência do perigo : lembrem-se todos, que deste socialismo educador foi pai o liberalismo, será herdeiro legítimo o bolchevismo.”

Católicos desertores nos arraiais socialistas

Posto isto, compreendeis facilmente, veneráveis Irmãos, com quanta dor vemos em algumas regiões não poucos dos Nossos filhos, de cuja fé e boa vontade não queremos duvidar, desertar dos arraiais da Igreja e passar às fileiras do socialismo; uns ostentando abertamente o nome e professando as doutrinas socialistas, outros indiferentes ou talvez forçados entrando em associações, que teórica ou praticamente professam o socialismo.

Ora Nós com paterna solicitude ansiosamente vamos considerando e indagando como foi possível, que chegassem a tal aberração; e parece-Nos ouvir a resposta, com que muitos se escusam : a Igreja e todos os que se lhe proclamam obedientes, favorecem os ricos, desprezam os operários, nem têm deles o mínimo cuidado; por isso é que se viram na necessidade de se inscrever no socialismo para salvaguardar os próprios interesses.” 9

Finalmente, o que dizer deste “Socialismo Cristão”?

“O socialismo cristão é um movimento político que se insere entre a esquerda e o centro-esquerda, e que defende simultaneamente ideais cristãos e socialistas. Os militantes deste movimento advogam que o socialismo e o cristianismo estão ambos interligados e são compatíveis, no entanto há divergências. Este movimento tinha a intenção de harmonizar (a classe trabalhadora e o patronato) numa sociedade mais justa, podemos incluir também a Teologia da Libertação como fazendo parte do movimento socialista cristão moderno.

O socialismo de matriz cristã, comumente denominado pelos católicos de Movimento Social Cristão, teve o seu início em meados do Século XIX, nas obras de vários doutrinários cristãos … que propunham um socialismo novo, baseado nos ideais do cristianismo, oposto à luta de classes e ao ateísmo, mas preocupado com as reivindicações das classes pobres e trabalhadoras, propondo um governo mais justo e uma sociedade mais equilibrada. Este novo socialismo, afastado do materialismo marxista, defende as organizações sindicais, as lutas dos trabalhadores em prol de melhores condições de trabalho e de vida e a justiça social.

No Brasil, o socialismo cristão está representado por teólogos como Leonardo Boff, excomungado pelo então Cardeal Ratzinger.” 10

Se esta parte da Igreja apoia o socialismo, porque os petistas atacam as posições religiosas do Catolicismo?

“Porque “o cristianismo formalmente, através dos círculos católicos, passaram a condenar qualquer forma de socialismo, algo que ganhou muita força após a encíclica “Rerum Novarum” do Papa Leão XIII (1891), que … recusa a luta de classes, e a não intervenção do Estado para permitir o desenvolvimento econômico criado pela industrialização e promover a colaboração entre patrões e empregados de forma livre, criando uma maior justiça social e uma distribuição mais equitativa da riqueza produzida.”

“Estudiosos da Bíblia argumentam que não há qualquer possibilidade de compatibilidade entre o Cristianismo e o socialismo. Fatos históricos, como a definição de um Estado Ateu por parte da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e de países como China comunista, Albânia comunista, Afeganistão comunista, Coréia do Norte e Mongólia comunista, demonstram que o Cristianismo não pode ser exercido com qualquer liberdade em um estado socialista. A filosofia Marxista-Leninista prega o ateísmo, o que confronta a afirmação do Cristianismo da criação do Céu, da terra e de tudo o que há no universo por Deus. Em “O Comunismo a Luz da Bíblia” demonstra-se como o comunismo é anti-Bíblico e contrário aos fundamentos Cristãos.

Na encíclica Rerum Novarum, o Papa Leão XIII define como as causas para os conflitos sociais: o desaparecimento das instituições antigas, dos princípios e do sentimento religioso que desapareceram das leis e das instituições públicas. Mas, ao mesmo tempo, ele colocou-se contra quaisquer alternativas igualitárias, revolucionárias, ao afirmar que “a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade pública.” Porém, no entender dos teóricos do socialismo cristão, o cristianismo tem em si valores socializantes, e reconhecem o capitalismo como contrário aos valores da fé cristã.

Se referindo aos homens de classes inferiores, o Papa Leão XIII afirma que ”os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para – os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.”

Outro ponto importante se relaciona com a questão entre família e Estado. No modelo socialista, a educação familiar perderia espaço para um sistema educacional igualitário a todos; a propriedade privada e o direito a herança deixariam de existir, estes bens, no entanto, passariam a ser de controle estatal. O cristianismo, considera estes princípios como uma violação do direito da família e uma tentativa de abolir a autoridade paterna; afirma, ainda, que indivíduo, as famílias, as associações têm direito de possuir bens de raiz, bens móveis e bens produtivos; e o Estado não pode açambarcar estes bens para si. Segundo as tradições judaico-cristãs, os homens têm o direito e o dever de proverem às suas necessidades, e o Estado não pode arvorar-se em providência e suprimir este direito ou substituir se a este dever.” 11

Devido a estes conflitos o já citado padre Paulo Ricardo detona Leonardo Boff, dizendo entre outros temas do “Poder paralelo dentro da Igreja:

“Há 30 anos o Frei Leonardo Boff  escreveu o livro “Igreja: Carisma e Poder”, em que ele colocava um projeto de “eclesiogênese”, uma Igreja nova que devia nascer “dos porões da humanidade”; nascendo a Igreja do Carisma e morrendo a Igreja do Poder, desbancando a Hierarquia opressora, que oprime o povo que não tem o poder. Boff diz que existe uma Igreja docente e uma Igreja discente, numa relação patológica de opressão e poder do docente sobre o discente. O Catolicismo ortodoxo seria uma forma patológica do Cristianismo, sendo que o Cristianismo verdadeiro não teria nada disso.

Na nova Igreja do Carisma não haveria poder, apenas democracia, que foi examinada pelo Cardeal Ratzinger que impôs um ano de silencio e penitência a Boff. Sua tese propõe a “democratização da produção do sagrado”: interpretação da Palavra de Deus, celebração da Eucaristia e o perdão dos pecados também pelos leigos. Isto que para ele é uma utopia, para nós católicos é um terror que já tem 500 anos: esta Igreja já existe e se chama Igreja Protestante – “meu irmãozinho, cai fora, vá para a Igreja Protestante” – lá não tem hierarquia, todo mundo é igual, todo mundo interpreta a Palavra de Deus, todo mundo celebra a Eucaristia e todo mundo perdoa os pecados!

O livro de Boff incute nas pessoas o medo de ter o poder. Boff tem um “discurso de veludo”, aonde “está tudo dominado”. Acontece na eclesiologia exatamente o que acontece na política: a esquerda têm o poder hegemônico na cultura brasileira; eles lutaram durante anos para chegar no poder e hoje eles têm o poder e não têm nenhuma timidez de ter o poder, só que bancam a vítima: é interessante ver como Lula e a Dilma bancam de vítima todo o momento: “eu estou sendo criticado, estou sendo assolado por uma força oculta que me impede de fazer o bem aos pobres”.

Existe dentro da Igreja um esquema de poder paralelo que está impedindo o Papa Bento XVI de exercer o poder no nosso país. Eles agem em duas frontes: “as coisas de Roma valem para Roma e não para a América Latina” e “uma perversão no conceito de inculturação”, que transforma a fé católica que depois é abandonada.” 12

Voltando ao tema em relação à frase de Lula: “Nós somos pobre, mas nós temos orgulho, nós queremos progredir”, o padre Paulo Ricardo conclui acima: “Acontece na eclesiologia exatamente o que acontece na política: a esquerda têm o poder hegemônico na cultura brasileira; eles lutaram durante anos para chegar no poder e hoje eles têm o poder e não têm nenhuma timidez de ter o poder, só que bancam a vítima: é interessante ver como Lula e a Dilma bancam de vítima todo o momento: “eu estou sendo criticado, estou sendo assolado por uma força oculta que me impede de fazer o bem aos pobres”. Este pensamento também confirma o conceito de Bakunin: “o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

Todos os papas mais recentes foram contra a aproximação do Socialismo com o Catolicismo:

“Na encíclica Mater et Magistra (1961), o Papa João XXIII reafirmou que “entre comunismo e cristianismo, … a oposição é radical, e acrescenta não se poder admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado: quer porque ele foi construído sobre uma concepção da vida fechada no temporal, com o bem-estar como objetivo supremo da sociedade; quer porque fomenta uma organização social da vida comum tendo a produção como fim único, não sem grave prejuízo da liberdade humana; quer ainda porque lhe falta todo o princípio de verdadeira autoridade social.”

Na encíclica Centesimus Annus  (1991), o Papa João Paulo II, atualizando os princípios da Rerum Novarum, salientou que “o erro fundamental do socialismo é de carácter antropológico. De fato, ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo económico-social, enquanto, por outro lado, defende que esse mesmo bem se pode realizar prescindindo da livre opção, da sua única e exclusiva decisão responsável em face do bem ou do mal. O homem é reduzido a uma série de relações sociais, e desaparece o conceito de pessoa como sujeito autónomo de decisão moral, que constrói, através dessa decisão, o ordenamento social. Desta errada concepção da pessoa, deriva a distorção do direito, que define o âmbito do exercício da liberdade, bem como a oposição à propriedade privada. … Se se questiona ulteriormente onde nasce aquela errada concepção da natureza da pessoa e da subjetividade da sociedade, é necessário responder que a sua causa primeira é o ateísmo. … O referido ateísmo está, aliás, estritamente conexo com o racionalismo iluminístico, que concebe a realidade humana e social do homem, de maneira mecanicista.” 13

Em relação à Teologia da Libertação, assim, diz Bento XVI:

“A fé cristã foi usada como um motor para esse movimento revolucionário, transformando-a em uma força política”. A “uma tal falsificação da fé cristã — observa — é necessário se opor por amor aos pobres e em favor do serviço que lhes é prestado”. João Paulo II, acrescenta, guiou-nos a “de um lado, desmascarar uma falsa ideia de libertação e, de outro, a expor a autêntica vocação da Igreja para a libertação do homem”. 14

Em seu recente discurso aos dirigentes do CELAM, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, o Papa Francisco alertou para o risco da ideologização da mensagem evangélica quando a teologia toma como base as ciências sociais: 

Esse método pode levar ao reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais.” 15

Como estamos falando da Igreja Católica Apostólica Romana, da Teologia da Libertação e do teólogo Leonardo Boff, vem à baila os temas da Reforma Agrária e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no Brasil nos últimos x anos!

A aproximação da Teologia da Libertação com o MST vem do fundamento desta teologia:

“O punctum stantis et cadentis da Teologia da Libertação é o pobre concreto, suas opressões, a degradação de suas vidas e os padecimentos sem conta que sofre. Sem o pobre e o oprimido não há Teologia da Libertação. Toda opressão clama por uma libertação. Por isso, onde há opressão concreta e real que toca a pele e faz sofrer o corpo e o espírito ai tem sentido lutar pela libertação.

A Teologia da Libertação partiu diretamente dos pobres materiais, das classes oprimidas, dos povos desprezados como os indígenas, negros marginalizados, mulheres submetidas ao machismo, das religiões difamadas e outros portadores de estigmas sociais. Mas logo se deu conta de que pobres-oprimidos possuem muitos rostos e suas opressões são, cada vez, específicas. Não se pode falar de opressão-libertação de forma generalizada. Importa qualificar cada grupo e tomar a sério o tipo de opressão sofrida e sua correspondente libertação ansiada.

Sem entrar em detalhes, surgiram várias tendências dentro da mesma e única Teologia da Libertação: a feminista, a indígena, a negra, a das religiões, a da cultura, a da história e da ecologia.” 16

Neste seu artigo “Quarenta anos da Teologia da Libertação”, Leonardo Boff escreve:

“A Teologia da Libertação celebra neste ano de 2011, 40 anos de existência. Em 1971 Gustavo Gutiérrez publicava no Peru seu livro fundador “Teologia da Libertação. Perspectivas”. Eu publicava também em 1971 em forma de artigos, numa revista de religiosas – Grande Sinal – para escapar da repressão militar o meu Jesus Cristo Libertador, depois lançado em livro.” 17

Muitos acreditam que este foi o início da TL, mas na realidade ela tem mais de 40 anos:

“Antes de Gutierrez lançar seu “Teología de la Liberación” o brasileiro, à época presbiteriano, Rubem Alves, defendera, e posteriormente publicara, sua tese de doutorado em Teologia no Princeton Theological Seminary nos EUA, intitulada “Towards a Theology of Human Liberation” (algo como “Em direção a uma Teologia da Libertação Humana”). Uma editora aprovou a publicação em forma de livro, mas o editor sugeriu pela retirada da palavra “libertação”.

Poucos anos depois surgiu o livro de Gutierrez. E antes ainda, o também presbiteriano Richard Shaull, que fora professor de Alves no Seminário Presbiteriano de Campinas, falava de algo muito parecido com o que viria a ser a TdL. O próprio Alves conta esta história com muitos detalhes em “Sobre deuses e caquis”, o prefácio que escreveu para “Da esperança”, o título que foi dado no Brasil pela Editora Papirus à edição em português de sua tese doutoral, verdadeiramente a semente da TdL. A vertente de TdL de Alves é bem diferente daquela defendida por Gutierrez e outros mais. A gente fala “Teologia” da Libertação no singular por força de hábito, porque o mais correto seria usar o plural, “Teologias” da Libertação. Juan Luis Segundo por exemplo, que a meu ver foi o mais denso e complexo de todos os teólogos da libertação, não era tido pelo tal pelo “mainstream” da TdL. Mas enfim, seja como for, a TdL está aí, com seus erros e acertos cumpriu, cumpre e cumprirá seu papel profético. A maioria dos seus críticos nunca leu nada que seja de fato TdL. E a maioria dos seus adeptos mais ardorosos e fervorosos nunca leu nada que seja de perspectiva diferente. 18

Um aprofundamento histórico das origens da TL remonta a pensadores ainda mais antigos:

“A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento, o Evangelho Social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; a Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann; e a teologia antropo-política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos Estados Unidos.

Especialmente a publicação em 1965, pelo teólogo batista Harvey Cox, A Cidade Secular, como contraposição à obra clássica de Santo Agostinho, De Civitate Dei, na qual defende que a divisão entre a cidade dos homens (o mundo terreno) e a cidade de Deus (o mundo espiritual), encontra-se superada a partir do século XX pela contraposição entre a cidade dos operários oprimidos (o mundo proletário), a cidade dos donos do poder (o mundo geopolítico) e a cidade dos capatazes opressores (o mundo burguês).

O marco do nascedouro da Teologia da Libertação, porém, está na publicação da obra Da Esperança, de Rubem Alves, que tinha o título de Teologia da Libertação, criticando a praxis infra-metafísica de uma forma geral e propondo o nascimento ex-nihilo de novas comunidades de cristãos, animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana e cuja linguagem teológica se tornava histórica.

A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil José Comblin. Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em 1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia.” 19

A partir desta evolução histórica, o sociólogo marxista brasileiro Michael Löwy, explica:

“O cristianismo da libertação é um vasto movimento social que aparece no Brasil desde o começo dos anos 1960 – bem antes da aparição dos primeiros livros da teologia da libertação. Este movimento inclui setores significativos do clero – padres, freiras, ordens religiosas, bispos – dos movimentos religiosos leigos, como a Ação Católica, a JUC (Juventude Universitária Católica), a JOC (Juventude Operária Católica), a ACO (Ação Católica Operária), das comissões pastorais, como Justiça e Paz, Pastoral da Terra, Pastoral Operária, e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Trata-se de uma ampla e complexa rede que ultrapassa os limites da Igreja como instituição, e que reúne, a partir dos anos 1970, milhões de cristãos que partilham a opção prioritária pelos pobres.

Sem a existência deste movimento social, sem o cristianismo da libertação – o que inclui ao mesmo tempo uma prática social emancipadora, novas formas de prática religiosa e uma reflexão espiritual (mais tarde teológica) que corresponde a esta experiência – é impossível entender o conflito entre a Igreja e o regime militar no curso dos anos de 1970, assim como, a partir de 1978, o espetacular surgimento de um novo movimento das classes subalternas, dos trabalhadores da cidade e do campo: o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Com efeito, uma grande parte dos militantes e quadros dirigentes dessas novas organizações vêm das CEBs e pastorais populares, e é no cristianismo da libertação que se encontra a motivação primeira de seu compromisso social e de sua mística política.” 20

E continua demonstrando a união do catolicismo com os movimentos marxistas:

“A descoberta do marxismo pela esquerda cristã não foi um processo puramente intelectual ou universitário. Seu ponto de partida foi um fato social evidente, uma realidade massiva e brutal no Brasil: a pobreza. O marxismo foi escolhido porque parecia oferecer a explicação mais sistemática, coerente e global das causas desta pobreza e, ao mesmo tempo, uma proposta radical para sua supressão. Para lutar de forma eficaz contra a pobreza, e superar os limites da visão caritativa tradicional da Igreja, era necessário compreender suas causas. Como o resumiu com ironia e humor Dom Helder Câmara: “Enquanto eu pedia às pessoas que ajudassem aos pobres, diziam que eu era um santo. Mas quando fiz a pergunta: ‘porque existe tanta pobreza?’, me chamaram de comunista”.

A principal limitação de alguns – não todos – setores do cristianismo da libertação, sobretudo na hierarquia da Igreja, tem a ver com a dificuldade de aceitar o direito das mulheres a disporem de seu corpo: divórcio, contracepção, aborto.” 21

Segundo este autor, as principais iniciativas da ACO foram:

“A resistência à ditadura militar e a contribuição à formação da Pastoral Operária, que teve papel decisivo na formação do novo movimento operário brasileiro. Desde 1978, os militantes da ACO estão presentes em sindicatos – como membros ativos e dirigentes sindicais –, em associações de trabalhadores, fundos de greve, sociedades de amigos de bairros, partidos políticos de esquerda.” 22

E o movimento cristão do PT após sua chegada ao poder:

“Como observamos, os avanços [dos movimentos do cristianismo da libertação] são consideráveis, e levaram à formação do novo movimento operário, camponês e popular no Brasil a partir do fim dos anos de 1970. Mas a partir de 2002, com a institucionalização governamental do Partido dos Trabalhadores e da direção da CUT, uma parte desta militância oriunda do cristianismo da libertação perdeu sua mística, seu horizonte utópico, e acabou enveredando pelos caminhos do pragmatismo político tradicional. Felizmente muitos setores da militância cristã, em particular nas fileiras do MST, mas também outros movimentos sociais ou políticos, preservaram a chama sagrada da luta pela libertação dos explorados e dos oprimidos.” 23

Este mesmo pensamento de Michael Löwy é compartilhado por Clodovis Boff, irmão de Leonardo Boff que apoiava a TL junto ao irmão, em oposição à instrução “Libertatis Conscientia” em que o futuro papa Bento 16 visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina, no ano de 1986. Já em 2007, o irmão de Leonardo Boff atacou a própria Teologia da Libertação, “movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger”. 24

Em uma entrevista à Folha de São Paulo, de 11/03/2013, Clodovis diz que sempre foi crítico à Teologia da Libertação:

“Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: “Com o tempo, isso vai se acertar”. Não se acertou.” 25

E conclui o seu pensamento em relação à posição que a Igreja tem sobre os conceitos marxistas da TL: 

“Ele [o papa Bento XVI] exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja.

Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.” 26

Complementando esta disparidade, ele diz:

“O teólogo alemão Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do “cristianismo anônimo”: qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.” 27

O “cristianismo anônimo” constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.” 28

Em que sentido teológico este “cristianismo anônimo” é uma desculpa insustentável como diz Clodovis? Na ideia de que “o cristão deve lutar pela justiça no mundo, libertando os pobres oprimidos de todo tipo de dominação”.

Se olharmos com atenção as palavras de Jesus no Evangelho, em nenhum momento ele prega uma luta dos oprimidos contra os seus opressores; na realidade, ele prega exatamente o contrário! Vemos isto mais claramente no famoso Sermão da Montanha:

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. Mt 5:10-12”

“Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir. Lc 6:27-30”

“E, chegando eles, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és homem de verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas à aparência dos homens, antes com verdade ensinas o caminho de Deus; é lícito dar o tributo a César, ou não? Daremos, ou não daremos? Então ele, conhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que a veja. E eles lha trouxeram. E disse-lhes: De quem é esta imagem e inscrição? E eles lhe disseram: De César. E Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Mc 12:14-17”

Ou seja, em nenhum momento Jesus induz seus discípulos a “fazerem justiça com as próprias mãos”; pelo contrário, ensina-os a suportarem as injustiças a fim de “ganharem o Reino dos Céus”. E separa o que é de Cesar e o que é de Deus, negando qualquer resistência ao poder da terra: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. Jo 18:36”

Portanto, toda a base teórica da TL cai por terra em tão poucas palavras… Leonardo Boff questiona:

“A questão crucial e sempre aberta é esta: como anunciar que Deus é Pai e Mãe de bondade num mundo de miseráveis? Este anúncio só ganhará credibilidade se a fé cristã ajudar na libertação da miséria e da pobreza. Então tem sentido dizer que Deus é realmente Pai e Mãe de todos mas especialmente de seus filhos e filhas flagelados.” 29

A explicação teológica o próprio Jesus traz, nestas palavras:

“E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás. Lc 4:5-8”

Por isso dizem os evangélicos que Satanás é o “Príncipe do Mundo”, já que ele o oferece a Jesus, em troca de sua adoração.

Independente de todas estas questões teológicas, interessantes, mas inesgotáveis, fica a questão do MST e da Reforma Agrária, tão atacada pelo PT quando era oposição e tão pouco valorizada quando este partido chegou ao poder.

Nada melhor para analisar esta questão do que o viés de um partido ainda mais socialista que o próprio PT, o PSTU:

Com o PT, reforma agrária parou

Ao invés de enfrentar o latifúndio, governos petistas incentivaram o agronegócio que hoje domina o campo brasileiro.

O PT foi uma referência para todos aqueles que lutavam pela terra contra o latifúndio. No Acre, o PT foi organizado durante a luta dos seringueiros contra a ditadura e os fazendeiros que queriam destruir a Amazônia e nos expulsar da floresta. Muitos dos nossos companheiros que realizaram os empates ajudaram a organizar o partido. Muitos foram assassinados pelo latifúndio como foi o caso de Chico Mendes.
 A eleição de Lula provocou muita esperança para todos que lutavam pela reforma agrária. Afinal, nas eleições de 2002, Lula prometeu que realizaria um milhão de assentamentos em quatro anos de governo. Mas depois de eleito, ele mudou de opinião. Chamou os usineiros de “heróis” e deu um caminhão de dinheiro para os fazendeiros do agronegócio. Dez anos depois, além de não realizar nenhuma reforma agrária, os governos do PT ainda legalizaram a grilagem de terras no país. Principalmente na Amazônia.

Sem reforma agrária

Na cartilha sobre os 10 anos do governo do PT, não há nenhuma linha sobre a reforma agrária. Isso porque os governos do partido não fizeram nada por ela.

No primeiro mandato, por pressão social dos movimentos sociais, foi elaborado o 2º Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), no qual a proposta de assentamento era de um total de 520 mil famílias. Na verdade, foram assentadas em torno de 220 mil famílias apenas, mas o governo diz que foram mais de 500 mil. Os dados do governo são mentirosos. Eles somaram como assentamentos novas áreas de regularização fundiária, áreas de reconhecimento de assentamentos antigos e reassentamentos de atingidos por barragens.
No segundo mandato de Lula sequer foi elaborado o 3º Plano Nacional de Reforma Agrária, provando que o governo havia se descomprometido em dar terra pra quem precisa.

O pior é que, além de não fazer a reforma agrária, o governo Lula passou a adotar uma política que beneficiou claramente os grileiros e latifundiários quando enviou duas Medidas Provisórias (MP) ao Congresso, a MP 422 e a MP 458.  As “MPs da grilagem”, como ficaram conhecidas, legalizaram propriedades públicas de até 1.500 hectares ocupadas ilegalmente pelo latifúndio.  Dessa forma mais de 67 milhões de hectares de terras públicas na Amazônia foram transferidas para os grileiros. Ou seja, os governos do PT entram para a história do Brasil, ao lado dos militares, como os que mais destinaram boa parte das terras da Amazônia à iniciativa privada.

Ao não fazer a reforma agrária, um dos resultados foi o aumento da violência contras os trabalhadores do campo. Em 2010, 34 trabalhadores rurais foram assassinados no país, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Ninguém foi punido. A absolvição recente de um sujeito acusado de ser o mandante do assassinato de um casal extrativista no Pará mostra de que lado a justiça está.

Um governo do agronegócio

Durante os governos petistas, o agronegócio dominou o campo brasileiro. Esse crescimento foi amplamente incentivado pelo PT.

O agronegócio é resultado da união dos grandes fazendeiros com os banqueiros e as grandes multinacionais. No Brasil houve uma mistura entre o velho latifúndio com a modernização da agricultura capitalista. Hoje, o agronegócio controla tudo no campo, desde a produção, passando pelos maquinários e insumos, até as grandes redes de supermercado.

O agronegócio foi patrocinado pelos governos Collor, Fernando Henrique Cardoso e, depois, por Lula. Os governos petistas deram incentivos fiscais, desonerações e ainda perdoaram as dívidas antigas dos latifundiários. Também deram muito dinheiro para os fazendeiros. Nos dois mandatos de Lula, o BNDES entregou em média R$ 18 bilhões por ano para o agronegócio, totalizando R$ 136 bilhões.  Se destinassem esse mesmo valor para a reforma agrária, teríamos hoje mais de 1,7 milhões de famílias assentadas, segundo cálculos do próprio INCRA. Ao invés disto, o governo oferece migalhas aos camponeses, como o Bolsa Família, Bolsa Verde etc.

Atualmente, 70% das terras dedicadas à lavoura estão ocupadas pela soja, cana de açúcar e milho, principais produtos do setor. Quem perde com essa monocultura de exportação são os pequenos agricultores e o país. O agronegócio expulsa os pequenos agricultores do campo. Em muitas regiões, a agricultura familiar e os assentamentos rurais que permanecem acabam se subordinado às regras do agronegócio.
O agronegócio também destrói a natureza numa escala jamais vista. A monocultura já destruiu boa parte do cerrado, e agora investe contra a Amazônia. Além disso, impõe o uso das sementes transgênicas e o uso dos agrotóxicos.

O agronegócio cresceu porque os governos do PT abandonaram o projeto de reforma agrária no Brasil, que poderia assentar milhões de sem-terras e garantiria a fartura de alimentos baratos para acabar com a fome no país. Dez anos depois, milhões de camponeses no Brasil ainda lutam por um pedaço de chão para tocar a sua vida. Nós não arredamos o pé. Continuamos lutando pela reforma agrária, contra o latifúndio no campo.” 30

Antes do PT chegar ao poder, esta era a situação brasileira da Reforma Agrária:

“Na década de 80 os movimentos sociais em torno da reforma agrária tomam força ao mesmo tempo em que surgem conflitos importantes no norte do país em torno de terras ocupadas irregularmente. Com o fim de resolver este problema são criados os Ministérios Extraordinários para Assuntos Fundiários e dos Grupos Executivos de Terras do Araguaia/Tocantins e do Baixo Amazonas (GETAT e GEBAM). Também sem muita representatividade.

Ainda na década de 80 (1985) o então Presidente José Sarney elabora um plano previsto no Estatuto da Terra, o PNRA (Plano Nacional de Reforma Agrária) para o qual é criado a MIRAD (Ministério Extraordinário para o Desenvolvimento e a Reforma Agrária). Porém suas metas são irreais e acabam fracassando. Em 1987 é extinto o INCRA e dois anos depois a MIRAD e a responsabilidade sobre a reforma agrária passa a ser do Ministério da Agricultura. No governo de Fernando Collor (1990-1992) os projetos de colonização são encerrados e não é feita nenhuma desapropriação de terras com o intuito de reforma agrária, que só é retomada em 1992 com a posse de Itamar Franco. Em 1996 é criado o Ministério Extraordinário de Política Fundiária ao qual é incorporado o INCRA. E, finalmente em 2000 é criado o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) ao qual o INCRA é definitivamente vinculado.

Os governos seguintes prosseguiriam com projetos em torno da reforma agrária, até que em 2003 um relatório publicado pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, criado em 1970) declara que o governo de Fernando Henrique Cardoso realizou o maior assentamento da história do Brasil com 635 mil famílias assentadas nas cinco regiões brasileiras.” 31

E como foi a questão dos assentamentos no governo de Lula (2003 a 2010)? No blog do MST, datado de 23/04/2008, lemos:

Lula abandonou a reforma agrária

Se a reforma agrária esteve na pauta das discussões no início do mandato do governo Lula, passados cinco anos a realidade mudou. O assunto pouco destaque ganha na agenda do presidente. Os discursos sobre o tema – uma bandeira histórica do PT e do próprio Lula – foram se tornando cada vez mais tímidos, raros. As inaugurações de assentamentos desapareceram. E a linha mestra do segundo mandato – o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – ignora o tema considerado outrora como uma etapa crucial ao desenvolvimento do país.

A compreensão dessa mudança de postura passa pela análise do estreitamento dos laços do governo petista com os grandes produtores rurais e as transnacionais, evidenciado pela polêmica frase de Lula sobre os “heróis canavieiros”. Para o economista Guilherme Delgado, estudioso do campo e um dos intelectuais que participaram em 2003 da elaboração do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), o governo Lula se orienta pela prioridade total ao agronegócio. “Essa reorientação termina por aniquilar uma política de reforma agrária e de reestruturação de setores rejeitados pelo processo primário exportador”, enfatiza.” 32

Segundo o Incra:

“Nos dois primeiros anos de governo, Fernando Henrique assentou 105 mil famílias. Já o ex-presidente Lula, 117,5 mil no mesmo período de gestão. No momento de maior crise política, entre o escândalo do mensalão, em 2005, e a campanha de 2006, Lula deu mais peso aos apelos dos movimentos sociais, assentando 263,8 mil famílias. Já o ponto mais alto de Fernando Henrique na reforma agrária foi no ano de sua reeleição, 1998, com 101 mil famílias assentadas.

Com menos de 44 mil famílias assentadas em dois anos, o governo Dilma Rousseff marca forte descenso no programa de reforma agrária. Em 2011, foram assentadas 22 mil famílias, a pior marca desde o governo Fernando Henrique. O Incra não divulga dados de 2012, mas reduziu a meta de 35 mil para 22 mil famílias a serem atendidas, apesar da demanda ser de, pelo menos, um milhão de famílias.” 33

Em 06/01/2014, João Pedro Stedile disse:

Sob Dilma, reforma agrária avançou menos

Em entrevista exclusiva concedida ao site e jornal da ABI, o coordenador geral do MST, João Pedro Stedile, revela como as multinacionais Monsanto, Cargill, Bungue, Adm e Dreyfuss agem sobre a agricultura brasileira, hoje sob o predomínio do agronegócio. Além de fazer uma análise crítica sobre o andamento da reforma agrária no governo de Dilma Rousseff, Stedile afirma que a expectativa dos movimentos sociais é de que em 2014 continuem as mobilizações de massa no Brasil, para que a verdadeira política seja debatida nas ruas.

“Infelizmente o balanço da reforma agrária durante o Governo Dilma é negativo. Vergonhoso diria. Porque, em termos estatísticos este ano, foram desapropriadas fazendas para apenas 4.700 familiais, que é menos do que o general Figueiredo fez no seu último ano.

A reforma agrária está bloqueada e como consequência a concentração da propriedade da terra e o avanço do capital sobre a agricultura aumenta. E isso é resultado da conjugação de diversos fatores que ocorrem ao mesmo tempo, criando uma situação muito difícil para os trabalhadores rurais sem terra. Primeiro, há uma avalanche do capital internacional sobre os recursos naturais brasileiros. Eles estão vindo para cá fugindo da crise global e investem seus capitais especulativos em terras, etanol, hidrelétricas e até em crédito de carbono, com títulos do oxigênio de nossas florestas. O aumento dos preços das commoditiesprovocado pela especulação gerou uma renda extraordinária no campo, que atraiu muitos capitalistas e os preços das terras foram às nuvens.

Terceiro, o governo Dilma representa uma composição de forças, que no caso do campo tem ampla hegemonia do agronegócio, basta dizer que a senhora (senadora) Katia Abreu, representante máxima do atraso do latifúndio de Tocantins é da base do governo e se reúne com frequência com a Presidenta.

Quarto, a imprensa burguesa brasileira, capitaneada pela Globo, Veja e seus veículos, criaram uma falsa opinião pública de que o agronegócio é o melhor dos mundos. Escondem seus efeitos perversos, como agora com as enchentes, que afetam todos os anos a região Sudeste e são consequências do desmatamento e do monocultivo na Região Amazônica e no Centro-Oeste.

E por último, diante de uma correlação de forças tão adversas, a classe trabalhadora também ficou paralisada, e diminuíram as grandes ocupações de terra e mobilizações no campo.” 34

Para finalizarmos este assunto, lemos no blog “Causa Operária”:

Números de assentamentos durante governo Lula foram falsificados

INCRA falsifica números da reforma agrária do período de 2003 a 2010 para esconder a política do governo em prol dos latifundiários

Nos últimos anos os conflitos no campo vêm aumentando sistematicamente. Segundo os dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Relatório de Conflitos no Campo, o que mais aumentou no período recente é a violência realizada pelo governo. Segundo a CPT, as tentativas de as­sassinato passaram de 44, em 2008, para 62, em 2009; as ameaças de morte, de 90, foram para 143; o número de presos aumentou de 168 para 204. Mas o que mais cho­ca é o número de pessoas torturadas: 6 em 2008, 71, em 2009. Número de famílias despejadas de 9.077, para 12.388. Em 2009, registrou-se 9.031 famílias ameaçadas pela ação de pistoleiros, contra 6.963, em 2008, mais de 29,7%.

Mas o Governo tenta esconder esses fatos inflando e falsificando números sobre assentamento e financiamento das famílias assentadas.

Em relatório do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) datado de dezembro de 2010, o órgão apresenta os oito anos do governo Lula como um verdadeiro defensor do trabalhador do campo. O Incra diz que em oito anos o volume de terras para reforma agrária cresceu 129%, dando um salto de 21,1 milhões de hectares de terras obtidos entre 1995 e 2002 para 48,3 milhões entre 2003 e 2010. “O número de famílias beneficiadas também aumentou ao longo de oito anos, chegando às atuais 614.093. No mesmo período, foram criados 3.551 assentamentos. Atualmente, o Brasil conta com 85,8 milhões de hectares incorporados à reforma agrária, 8.763 assentamentos atendidos pelo INCRA, onde vivem 924.263 famílias”, diz o relatório, ou seja, o governo Lula seria responsável por 56% de todas as terras incorporadas à reforma agrária de toda a história do país.

Está na cara que os dados são mentirosos e o que está acontecendo no campo é totalmente o oposto. Ogeógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo contesta os dados apresentados pelo governo. O pesquisador observou os dados apresentados pelo INCRA do ano de 2003 a 2009 e verificou que “26,6% das famílias assentadas por Lula é, na verdade, constituído por famílias que já viviam e produziam na zona rural, mas sem título de propriedade“. Segundo Umbelino a farsa é ainda maior porque 38,6% do total dos dados seriam de famílias que ocuparam lotes abandonados. Ainda segundo o pesquisador, famílias assentadas que tiveram que ser transferidas de um local para o outro também foram utilizadas no cálculo do INCRA.

Concluindo, somente um terço (34,4%) dos dados apresentados pelo Incra são realmente de famílias assentadas no governo Lula. Esse foi um dos motivos que fizeram o governo abandonar o Plano Nacional de Reforma Agrária apresentado no primeiro mandato e não estabeleceu metas de assentamento posteriormente. 

Governo dos latifundiários

Somado a esse fato apresentado estão os números de financiamento da agricultura, setor em que o governo Federal nunca distribuiu tanto dinheiro, vale dizer aos latifundiários, quanto o período governado pelo PT.

Em 2010, a agricultura brasileira obteve o maior financiamento da sua história com cerca de 114 bilhões de reais, sendo que R$ 100 bilhões foram destinados aos latifundiários e o restante, ou seja, 14 bilhões, apenas 12% do total, foi destinado a agricultura familiar.

Somente os usineiros, que foram chamados por Lula de “heróis nacionais” receberam do BNDES mais de R$ 28 bilhões.

Esse é o verdadeiro motivo que fez com que o INCRA inflasse os dados da reforma agrária, porque está claro que o dinheiro da população está indo para o bolso dos latifundiários.

O fato é que o governo do PT está sendo um governo contra os trabalhadores, no qual o povo recebe repressão e mortes, enquanto os latifundiários recebem o dinheiro. É o resultado da política de conciliação de classes levada adiante pelo governo do PT e Lula.” 35

E por fim, após analisarmos ampla e profundamente o tema da “elite brasileira” tão atacada pelo PT e outros partidos da Esquerda, chegamos à conclusão que a “elite” acaba se resumindo a uma só questão: 

 

Os “Opressores Maus” 

Depois de tudo o que analisamos só nos resta concluir que a “elite brasileira” tão condenada pelo PT são simplesmente as pessoas “más” em todas as suas variantes: ricos maus, brancos maus, conservadores maus, jornalistas maus, ladrões maus, intelectuais maus, religiosos maus, opositores maus, etc…

Tudo se resume à dualidade descrita por Marx no seu Manifesto Comunista: “numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária, da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta.” Os maus são os opressores (que ora são os ricos, ora são os brancos, ora são os ladrões, ora são os católicos, ora são os jornalistas, ora são os escolarizados, etc.). E os bons são todos os oprimidos (mas também existem ricos, brancos, ladrões, católicos, jornalistas e escolarizados na ala dos oprimidos). Quem está com a razão? Direita ou Esquerda? Capitalistas ou Socialistas? Na essência, ninguém! Mas como todo mundo acha que está certo, continuaremos “nesta guerra ininterrupta, uma guerra que terminou sempre na ditadura de uma das partes, ou na destruição das duas classes em luta.”

Desenvolvo melhor este tema em outra parte do meu blog. 36

Concluindo, a Esquerda, no mundo, representa a luta dos oprimidos e o PT, no Brasil, é o partido do Bem, que tem como ideais “a justiça, a igualdade, o progresso ético-moral, o desenvolvimento social, o respeito e a paz”. Tudo o mais que não for do PT é o mal, o ódio e o egoísmo; enfim, encontramos a nossa odiosa “elite brasileira”: são apenas os opressores de todos os tempos!

Termino esta minha longa explanação com estas brilhantes palavras do admirável Rubem Alves:

 

GANHEI CORAGEM

 

“Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente

tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”,

observou Nietzsche.

É o meu caso.

Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.

Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe

acerca da hora em que a coragem chega:

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”.

 

Na velhice.

Como estou velho, ganhei coragem.

 

Vou dizer aquilo sobre o que me calei:

“O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.

 

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus

como fundamento da ordem política.

Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo.

Não sei se foi bom negócio;

o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável,

é de uma imensa mediocridade.

Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

 

A Teologia da Libertação sacralizou o povo

como instrumento de libertação histórica.

Nada mais distante dos textos bíblicos. 

Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.

Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha

para que o povo, na planície,

se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.

Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso

que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

 

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!

Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!

Mas ela tinha outras ideias.

Amava a prostituição.

Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias

pulava de perdão a perdão.

Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário

pelo mercado de escravos.

E o que foi que viu?

Viu a sua amada sendo vendida como escrava.

Oséias não teve dúvidas.

Comprou-a e disse:

“Agora você será minha para sempre.”.

Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa

numa parábola do amor de Deus.

 

Deus era o amante apaixonado.

O povo era a prostituta.

Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,

porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces;

a verdade é amarga.

 

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola

com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos

sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões,

se transformaram em donos do circo.

 

O circo cristão era diferente:

judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,

se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro

“O Homem Moral e a Sociedade Imoral”

observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.

São seres morais.

Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem.

Mas quando passam a pertencer a um grupo,

a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

 

Indivíduos que, isoladamente,

são incapazes de fazer mal a uma borboleta,

se incorporados a um grupo tornam-se capazes

dos atos mais cruéis.

Participam de linchamentos,

são capazes de pôr fogo num índio adormecido

e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.

Indivíduos são seres morais.

Mas o povo não é moral.

O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

 

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,

segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.

É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

 

Mas uma das características do povo

é a facilidade com que ele é enganado.

O povo é movido pelo poder das imagens

e não pelo poder da razão.

Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista

que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa.

Somente os indivíduos pensam.

Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam

a ser assimilados à coletividade.

Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

 

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.

Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung,

o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.

Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

 

O nazismo era um movimento popular.

O povo alemão amava o Führer.

 

O povo, unido, jamais será vencido!

 

Tenho vários gostos que não são populares.

Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.

Mas, que posso fazer?

Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche,

de Saramago, de silêncio;

não gosto de churrasco, não gosto de rock,

não gosto de música sertaneja,

não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,

eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos

e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”,

à semelhança do que aconteceu na China.

 

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.

Mas, para que esse acontecimento raro aconteça,

é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:

“Caminhando e cantando e seguindo a canção.”,

Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.” 37

 

Paulo Maciel

 

Fontes:

 

 

  1.  http://consciencia.blog.br/2013/09/60-perolas-de-paginas-de-direita-no-facebook-o-odio-e-a-ignorancia-como-ideologias.html#.U6CTn_ldXwo
  2. http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Autores/Marx,%20Karl/Critica%20da%20Filosofia%20do%20Direito%20de%20Hegel.pdf
  3. http://www.reocities.com/Athens/4539/opiodopovo.htm
  4. http://www.youtube.com/watch?v=cMTpk-L1Coo
  5. http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_engels_origem_propriedade_privada_estado.pdf
  6. http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_engels_origem_propriedade_privada_estado.pdf
  7. http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_engels_origem_propriedade_privada_estado.pdf
  8. http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_engels_origem_propriedade_privada_estado.pdf
  9. http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_9310515_quadragesimo-anno_po.html
  10. http://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo_crist%C3%A3o
  11. http://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo_crist%C3%A3o
  12. http://aluizioamorim.blogspot.com.br/2011/06/pe-paulo-ricardo-detona-leonardo-boff-e.html
  13. http://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo_crist%C3%A3o
  14. http://fratresinunum.com/2014/03/07/bento-fala-teologia-da-libertacao/
  15. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o
  16. http://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da-libertacao/
  17. http://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da-libertacao/
  18. http://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da-libertacao/
  19. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o
  20. http://www.brasildefato.com.br/node/11478
  21. http://www.brasildefato.com.br/node/11478
  22. http://www.brasildefato.com.br/node/11478
  23. http://www.brasildefato.com.br/node/11478
  24. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/03/1244071-essencia-da-teologia-da-libertacao-foi-defendida-pelo-papa-diz-irmao-de-leonardo-boff.shtml
  25. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/03/1244071-essencia-da-teologia-da-libertacao-foi-defendida-pelo-papa-diz-irmao-de-leonardo-boff.shtml
  26. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/03/1244071-essencia-da-teologia-da-libertacao-foi-defendida-pelo-papa-diz-irmao-de-leonardo-boff.shtml
  27. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/03/1244071-essencia-da-teologia-da-libertacao-foi-defendida-pelo-papa-diz-irmao-de-leonardo-boff.shtml
  28. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/03/1244071-essencia-da-teologia-da-libertacao-foi-defendida-pelo-papa-diz-irmao-de-leonardo-boff.shtml
  29. http://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da-libertacao/
  30. http://www.pstu.org.br/node/19667
  31. http://www.infoescola.com/geografia/reforma-agraria-brasileira/
  32. http://www.mst.org.br/node/5618
  33. http://oglobo.globo.com/brasil/com-dilma-reforma-agraria-cai-em-2011-tem-pior-marca-desde-fernando-henrique-7206885
  34. http://www.viomundo.com.br/politica/stedile-reforma-agraria-avancou-menos-no-governo-dilma-do-que-no-figueiredo.html
  35. http://www.pco.org.br/conoticias/nacional/numeros-de-assentamentos-durante-governo-lula-foram-falsificados/zyio,y.html
  36. https://drpaulomaciel.wordpress.com/sobre/mundo-louco/as-ideologias-em-crise/
  37. http://filosofarpreciso.blogspot.com.br/2011/01/ganhei-coragem-por-rubem-alves.html

 

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2 Comentários (+add yours?)

  1. Antonio
    jun 29, 2014 @ 23:49:10

    este rico conteúdo, se publicado em redes sociais rendera ao autor o troféu ”
    COXINHA” (infelizmente)

    Responder

    • drpaulomaciel
      jul 06, 2014 @ 14:27:56

      Verdade. kkk

      Responder

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